Naqueles mesmos idos contava-se à boca pequena: “Você quer mesmo ir para a Ponta da Trindade? É um paraíso… e de fato você logo vai se sentir no paraíso, até meio flutuando em meio às nuvens – canábicas -, mas… (e sempre tem esse mas, principalmente para isolar e esconder os ditos paraísos). Mas… se chover você não consegue voltar, não tem como subir a ladeira do Deus me Acuda” (a estrada de chão de terra e areia, cheia de ravinas e elevada inclinação).

Ocorre que fomos, espremidos, num passatinho cheirando a um bando de ursos enjaulados (no caso, Pevê, Mauro, Vítor, que era o motorista, e eu). Depois dessa, voltei uma segunda vez. Entre uma e outra descida da divinamente implorante ladeira, ficou um hiato de dezesseis anos. As diferenças do cenário, e talvez ainda mais, as sensações deste cenário, correspondiam a dois mundos quase distintos.

Voltemos por ora à primeira jornada pela Ladeira do Deus me Acuda. Pois precisamos de Sua acudida mesmo. E o socorro celeste veio pelo aviso que os próprios céus nos deram. A manhã cozinhava naquela divisa entre o litoral paulista e o fluminense, entre Ubatuba e Parati. Não havia placa na 101, mas, quem tem boca vai à Roma e também à Trindade. Assim, achamos o atalho que saía da BR e que poucas centenas de metros (e toneladas de poeira) depois, justificava a sua denominação popular. Fosse um tanto mais ao norte, umas latitudes a menos e, por certo, a estrada da ribanceira abaixo haveria de se chamar de Ladeira de Vixe Maria.

Extasiamos logo na primeira praia, antes de chegar no povoado riponga, a tal da Vila da Trindade. Passar no agito da vila e conhecer a tal Praia do Cachadaço ficaria para depois. Contudo, o fervo que fazia agora já pelo meio-dia e a proximidade das montanhas da Serra da Bocaina, logo forjaram tão negras quanto bojudas nuvens. E a gente lá ia querer se recordar do ciclo da água naquela hora? Dá no pé. Era o sinal da acudida de Deus. Nuvens negras = caia fora! Era uma verdadeira carreata, subindo a estradinha. Poeira dos carros da frente, mais poeira deixada para os de trás. De vez em quando, cena de pastelão: todo o mundo de ré: alguém não conseguiu subir a rampa. Precisa de mais embalo. Aí, meu velho, não tem outro jeito, tem de ser todo mundo solidário mesmo. (Lembra-se de como era a subida de Mariscal para Quatro Ilhas, antes de asfaltarem? Então dobre, não, triplique aquilo e terás uma ideia do que fora essa subida da Ladeira do Deus me Acuda da Ponta da Trindade – aliás, em tempo: vai ver que era esse o verdadeiro nome, lusocatólico de batismo, da afamada estrada.)

 Dessa viagem não guardamos registro, senão o que ficou todo engruvinhado nas dobras dos miolos, fita em celuloide que por enquanto o tempo não mofou, ao contrário, não sei por que feitiçaria, mas a verdade é que apenas realçou as imagens. Não tivesse estragado a câmera de Super Oito (o vídeo cassete era novidade pros mais abastados naquele início dos anos oitenta), teríamos belas e provavelmente hilariantes lembranças para serem repassadas a quem interessar pudesse, um tanto azuladas, desbotadas é verdade. Os últimos suspiros das filmagens em oito milímetros ficaram em Ubatuba, na última parada. Que pena…

Da outra vez que desci a famigerada, porém santa estrada, o carro não era mais um Passat 80 e nem cheirava a urso. Íamos eu e minha esposa, tão somente. Nem sei se havia passado a divisa e entrado no estado do Rio de Janeiro, mas numa das serras antes de chegar à Parati e que ornam maravilhosamente aquela costa, uma placa na margem da rodovia BR 101 apontava para a direita: Ponta da Trindade.

 De modo que descemos. Segui cauteloso os primeiros metros, em liso asfalto, com faixas bem pintadas e tudo o mais, esperando que logo começasse o trecho de chão batido (batido e amarrotado). Porém, o asfalto novinho em folha seguia ladeira abaixo. Ao meu lado, um grupo de esqueitistas, uns cinco, desciam agachados, ora ou outra me alcançando na tomada das curvas. O asfalto seguia até embaixo, mais de cem metros de desnível desde a rodovia federal até a faixa de areia da praia. O asfalto invadiu a estrada. Violou a essência da estrada. Não, desde então Deus não mais acudia. Não era mais preciso. Mas quem acudiria o meu desapontamento?

Vá lá, não serei tão nostálgico e futurofóbico assim. É preciso reconhecer que  ficou um efeito dos tempos mágicos, daquelas nuvens enebriantes que de alguma forma envolveram o engenheiro da recapada estrada: mal a estrada chega ao nível da praia, ela subitamente estanca. O asfalto, a pintura amarela da faixa central, tudo subitamente para, parece que todos se declinam. Ajoelha a estrada, respeitosamente abaixa um pouco a cabeça, para deixar passar um riacho de pedras, gorjeante, rolando a serra abaixo. Esse sim, sempre foi e sempre será a ladeira (fluvial) do Deus me acuda. Tapete de água, granito e limo, desenrolado desde uma até outra encantadoras obras da natureza do Deus me crie: a serra e o mar, o verde e o azul, duas aveludadas superfícies: a da floresta e a do oceano. E entre um e outro, o pequeno rio de pedras. Pequeno e pomposo, que nem se cabe em seus três metros de largura já quase na foz, mas que fez a estrada, o asfalto e o progresso pararem. Os carros, pois que pipoquem sobre as pedras roliças e que borrifem as águas do córrego pros lados.

Assim, seguimos. Simpática e serena a vila da Trindade, com seu casario colonial rente as ruelas sem calçada.   As nuvens , aquelas nuvens, mesmo em dias totalmente azulados como o que presenciávamos desta feita em um ameno julho, continuam  patchulizando e incensando com diversas fumarolas os ares do lugar. O jeito hippie da vila porém foi enfeitiçada pela mesma flauta de Hamelin que enfileirou atrás da toada, a Arembepe, que já fora o recanto baiano de Joplin. o quadrado de Trancoso e o Arraial d’Ajuda, lá para as bandas de Porto Seguro, a Guarda do Embaú, ao sul de Florianópolis, entre tantas outras. Foi a flauta de Hamelin ou foi o toque de Midas?  Todas lindas, guardam características da arquitetura e da cultural colonial, mas, os bares e as pousadas a preço salgado, milhas de distância, ou melhor, décadas de distância dos ideais das comunidades hippies.

Bem, leva uma camiseta ou então um chaveirinho e sigamos em frente. Aí larga-se o carro ao final da estrada, e caminhe pela praia. Uma mais bela que a outra, culminando na indescritível Cachadaço, com sua piscina natural. Aquele azul é o canto da sereia. Olhou para ele e está perdido: você cai no mar. Mesmo em julho, com a água um tanto fria. E tem como não olhar para esse mar da Ponta da Trindade? Deus me acuda!  (E dessa vez ficaram os registros azuladamente eternizados nos diapositivos, os velhos e inigualáveis slides).

Francisco Rehme, o Chicho.