Sabe aquela música que você já ouviu tantas vezes que ficou banal? Já tocou em tudo quanto foi formatura, evento estudantil. Quando morreu o presidente Tancredo Neves essa música acompanhou quase todas as reportagens, servindo de trilha para as cenas do enterro e, mais tarde, virou até novela da Globo.

Pois é, estou falando de “Coração de estudante”. É verdade, enjoei dessa música. De tanto ouvi-la parece que minha percepção se desgastou, amortecendo o impacto do seu forte significado. Olha a carga genética trazida pela parceria: Wagner Tiso fez a música (em 1984), como trilha sonora do documentário “Jango”, de Silvio Tendler, para embalar os momentos mais intensos na vida do presidente que acendeu a ira dos generais e o estopim dos movimentos sociais e sindicais no Brasil se comprometendo com as reformas de base; após a estreia do filme “Jango”, Milton Nascimento fez a letra, e a canção se tornou também tema das “Diretas-Já”. Milton escreveu os versos tomado pelas lembranças de um enterro que, apesar da determinação dos militares de que fosse secreto, se tornou uma das maiores e mais comoventes manifestações políticas e humanas da história do Brasil. Trata-se do enterro de Edson Luís, um garoto de 16 anos, primeiro estudante assassinado pela sanha do governo militar, em 28 de março de 1968.

O fato é que até as mais belas canções sofrem desgaste. Não só as canções. A repetição, além de um certo limite, parece matar a capacidade de interpretação, entupindo os sentidos: ouvimos mas não percebemos, vemos mas não deciframos, tocamos mas não sentimos, comemos mas não degustamos, percebemos os odores mas eles não nos provocam mais nada.

Mas numa noite dessas, dormi com um canal de música ligado e acordei em plena madrugada ouvindo… “Já podaram seus momentos, desviaram seu destino, seu sorriso de menino, quantas vezes se escondeu.” Nunca tinha sentido o poder desses versos de forma semelhante. Pensei nos meninos da década de 1960, que tanto sonharam com um país democrático e justo, e por isso perderam a vida, ou o brilho dela nos porões sombrios da tortura. Que mal poderia haver nesse desejo adolescente? Não é normal que um jovem tenha ideais? Um garoto como Edson Luís, e como tantos outros que desapareceram, que tiveram seus sonhos desfeitos, suas vidas arrancadas, tinha planos profissionais e pessoais, mas também tinha planos para o país, para o povo do qual fazia parte. E esses meninos e meninas identificaram um país com muitos problemas a serem resolvidos, mas parece que os tempos difíceis provocam os indivíduos ao seu mais alto grau de coragem e de grandeza, ou de covardia. E foi o que aconteceu nessa época, por isso tantas dissidências e posições extremadas.

Isso me fez pensar também nas gerações seguintes, como a minha, que adolesceu em meio a um processo de abertura política, mentirosa em vários aspectos, é certo, mas voltavam ao país todos aqueles que fora dele escaparam da morte e tiveram a pena menor, ficar longe de casa. Aos poucos a censura foi se diluindo, mas não sem pressão. Os filhos da esquerda ou da direita foram jovens em meio à luta pelas diretas, ao retorno do poder civil, à primeira eleição direta (1989), depois de vinte anos de ditadura vivida por seus pais. Quais seriam as dificuldades nesse momento? Aprender o significado da liberdade pelo discurso dos pais, que viveram na carne a sua falta, teria um novo significado. Era preciso identificar, a exemplo dos pais que tiveram causas coletivas a defender, quais eram as grandes causas nesse momento: chegar a eleições diretas, lutar contra o imperialismo que se impunha por meio da propaganda e do mercado, que passava a ser transnacional? Será que conseguimos sair do discurso, ou ele ficou banal de tanto que se repetiu, assim como a música de que falei no início? Talvez tenhamos aprendido a matar as grandes causas pelo discurso, pela repetição, que faz as grandes preocupações se tornarem clichês. E quando veio a geração seguinte nossa herança foi o desgaste, o clichê? Será que estamos sabendo ressignificar a existência em coletividade para os novos tempos? Agora são os netos dos tempos sombrios que tomam nas mãos o futuro, mas será que não há mais nada pelo que possam lutar? Se forem educados por aquisições cada vez mais sofisticadas de tudo o que o mercado tem a oferecer, os pais podem viver um grande e falso “conforto”: o do silêncio e da acomodação dos filhos. Mas para onde vamos dessa forma? É difícil alimentar um sentido de grupo, de coletividade, quando só alimentamos sonhos pessoais em nossos filhos. Sonhos? Ou “síndrome do consumo repetitivo”? Ah… tudo que se repete perde o sentido, enfastia…

Talvez esteja aí o ponto: não repetimos mais um discurso para os nossos filhos, como nossos pais fizeram conosco, mas repetimos a satisfação imediata, porque não queremos ser chatos como nossos pais. Queremos ser os grandes camaradas dos nossos filhos, mas a que preço? Não falo de$$e preço, falo de algo além do material. Precisamos descobrir o que enfastiou e entediou a geração atual, antes que eles percam o sentido de coletividade, antes que eles pensem que a política não vale a pena porque repetimos para eles que só há corruptos, antes que acreditem que de nada adianta pensar em futuro porque repetimos para eles que o mundo acaba em 2012, antes que busquem a felicidade tão passageira quanta a sensação de um novo bem de consumo (mas enquanto ele é novo), antes que pensem que a escola só serve para os pais terem onde deixá-los, antes que percebam que flutuam entre a casa do pai e a casa da mãe acreditando que ter o próprio espaço e individualidade significa poder se trancar em um quarto (ora na casa do pai, ora na casa da mãe) e acessar o mundo na palma da mão sem que ninguém interfira.

Qual é a nossa herança? Precisamos identificar o que ainda podemos deixar para esses meninos e meninas que aqui estão. Para isso é preciso um exercício de memória, não podemos passar a limpo um mundo ou um país abolindo a sua história, mas também não podemos cair no esvaziamento da repetição. As grandes causas sociais e políticas têm seu contexto e sua época. É um equívoco querer repetir hoje as lutas das décadas de 1960 e 1970, mas precisamos perceber quais são as grandes questões da atualidade. Talvez uma delas seja justamente recuperar o sentido de coletividade. Talvez outra seja repensar as relações humanas e de como elas acontecem hoje. Talvez precisemos culpar menos as redes sociais, mas pensar que potencial podem ter para que a humanidade se reinvente. As questões ambientais e as desigualdades sociais não podem ser vistas como algo tão distante que fuja ao alcance de nossas mãos, mas temos que pensar quais ações podem ser o diferencial da nossa existência pessoal e coletiva. Há muitas outras questões que eu não consigo enxergar ainda, mas que você que está lendo esse texto pode já ter identificado. Assim se faz a coletividade, compartilhando, mas vamos a fundo para compartilhar.

Por Martinha Vieira, educadora há 23 anos e mãe há 17.

E aí vai a canção que desencadeou essa reflexão:

Coração de estudante

(Wagner Tiso e Milton Nascimento)

Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor

Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê
Flor, flor, e fruto

Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes, planta e sentimento
Folhas, coração,
Juventude e fé.