Há pouco tempo topei em responder algumas perguntas para uma matéria da Revista Escada com o seguinte tema:  “Como utilizar o Facebook a favor da educação?” Confesso que, apesar de serem apenas nove perguntas e sobre um assunto que tenho certa intimidade, respondê-las não foi tão fácil quanto pensei. Bom, como apenas alguns trechos das respostas foram publicadas na revista e por ser um tema que vem sendo tão discutido no ambiente escolar, achei interessante postar aqui a entrevista na íntegra para que possamos continuar debatendo.

Vamos lá:

1- Hoje convivemos com os chamados nativos digitais, as crianças que, basicamente, nasceram sabendo usar computadores e internet. Considerando o fato, é correto que os pais eduquem as crianças de modo diferenciado ou reforçado quanto ao comportamento que têm na web e o comportamento no dia a dia?

Independente dos ambientes virtuais, é preciso educar as pessoas para que consigam adquirir uma visão de mundo crítica, sendo capazes de observarem e interagirem com a complexidade das relações humanas de maneira sensível, crítica e tolerante com a diferença do próximo. O potencial que o Facebook oferece, assim como outras redes sociais e ferramentas da internet, para a educação, a consciência política, a troca de informação entre diferentes culturas, quebrando barreiras geográficas, é imensa. No entanto, a internet tem se tornado, como disse muito bem o músico Zeca Baleiro, um mundo povoado por covardes anônimos e cheios de opiniões. Afinal, parte das pessoas e crianças que estão nas redes sociais são as mesmas que julgam e agridem o diferente nas ruas e no pátio da escola. Portanto, a questão não é educar para a internet, mas educar para a vida, pois o ambiente virtual nada mais é do que uma extensão da realidade física.

2- Como os professores e a escola podem contribuir para a formação de “cidadãos digitais”?

Aprender a utilizar as ferramentas de comunicação que a internet oferece é fácil, porém o difícil é ter o que dizer por meio delas. E é nesse ponto, o ter o que dizer, defender opiniões e colocar em processo dialético suas convicções que a escola precisa trabalhar de maneira árdua para formar cidadãos, acima de tudo. A pessoa, sabendo exercer seu papel de cidadão, conseguirá exercê-lo em qualquer ambiente, virtual ou não. Claro que a escola também precisa manter-se antenada e trazer para a discussão da sala de aula os diferentes exemplos em que, por exemplo, a consciência e a movimentação política tiveram início na web e como reverberou em consequências para a realidade de um povo, como aconteceu na Primavera Árabe. Então, um caminho possível é a escola mostrar para o aluno que ele pode, e deve, a partir das ferramentas da internet – redes sociais, Youtube, blogs, entre outros – exercer seu papel de cidadão e, consequentemente, transformar uma realidade para melhor.

3- O Facebook já se consolidou como plataforma essencial para a comunicação. No caso específico da educação, como a ferramenta pode ser uma aliada de professores e alunos?

Num mundo ideal, provavelmente, o Facebook poderia ser utilizado como uma grande sala virtual, onde professores e alunos compartilhariam informações referentes aos conteúdos disciplinares; utilizariam jogos educativos disponíveis na própria plataforma do Facebook; e docentes criariam grupos virtuais com alunos de diferentes habilidades e, a partir de desafios a serem cumpridos, estimulariam a inteligência coletiva entre os estudantes. Porém, no mundo real, onde o professor precisa cumprir o conteúdo exigido em prazos curtos, determinar modelos de avaliação para salas de aulas inchadas de alunos, professores que ainda têm medo e receio da utilização da tecnologia, além das escolas precisarem lidar com questões jurídicas referentes às horas trabalhadas pelo corpo docente em ambientes virtuais, confesso que se o professor utilizar o Facebook como uma ferramenta para postar material complementar da sua disciplina já é um grande passo.

4-  Se tomado como uma extensão das salas de aula, o Facebook pode se tornar apenas um reprodutor de conteúdos disciplinares. Ou seja, uma velha prática com roupagem diferenciada. De que forma, então, exercer a prática educacional de forma inovadora nesse espaço virtual? Que recursos, você, como professor, recomenda?

Como disse anteriormente, o Facebook poderia ser utilizado como uma grande sala virtual, onde professores e alunos compartilhariam informações referentes aos conteúdos disciplinares; utilizariam jogos educativos disponíveis na própria plataforma do Facebook; e docentes criariam grupos virtuais com alunos de diferentes habilidades e, a partir de desafios a serem cumpridos, estimularia a inteligência coletiva entre os estudantes. No entanto, só acompanhei estratégias de sucesso como estas em livros de teoria sobre o assunto, com exemplos práticos em escolas sempre tão distantes, em países como no Canadá e na Nova Zelândia, que possuem salas de aulas com pouquíssimos alunos e modelos pedagógicos diferentes das tradicionais aulas de cinquenta minutos dividas por disciplinas.

5-  Como o aluno pode transformar o poder de interação do Facebook em conhecimento?

O Facebook, assim como em qualquer rede social, nada mais é do que um grande encontro de pessoas no qual elas trocam informações, dicas e opiniões, ou seja, a interação nada mais é do esta constante troca de dados. E importante salientar que informação não é conhecimento. Desta forma, o aluno só adquire conhecimento a partir do momento que consegue codificar a informação e manter uma análise crítica sobre ela. Só que para isso de nada vale a velocidade, cada vez maior, com que a informação vem sendo gerada e reproduzida, pois para a formação de pensamento crítico é necessário ler, escrever, conversar, debater, experimentar, ou seja, interagir o seu mundo com o mundo dos outros. A troca de informação pelas redes sociais é só um detalhe.

6- Com os tablets e smartphones, é quase inevitável que os alunos usem as redes sociais em sala de aula. De que forma controlar esse uso?

1) Planejar aulas que propiciem uma maior interação dos alunos do processo investigativo do conteúdo proposto pelo professor, evitando apenas aulas expositivas, em que alunos precisam ficar cinquenta minutos apenas ouvindo um único emissor.

 2) Em último caso, utilizar filtros no wi-fi da escola que não permitam os alunos entrarem nas redes sociais durante as aulas, deixando apenas liberado sites para pesquisa. No entanto, esta segunda alternativa vai por água abaixo quando consideramos que alunos podem utilizar conexões próprias via 3G. Além do mais, proibir parece sempre uma alternativa perigosa.

7- Você acha importante que escolas e universidades estabeleçam políticas de uso para as mídias sociais em sala de aula?

Talvez eu seja ingênuo, mas não vejo a necessidade de políticas de uso para o ambiente universitário. Acredito que é uma questão de bom senso e diálogo entre os professores e seus alunos. Já nas escolas, é importante estabelecer algumas normas específicas de utilização de acordo com os espaços físicos da escola e das séries dos alunos, afinal é preciso impor alguns limites ao lidar com crianças e adolescentes.

8- Faz sentido que os professores tenham posturas diferentes no relacionamento com colegas, alunos e comunidade escolar no presencial e no virtual?

É uma situação delicada. Quem trabalha com educação, querendo ou não, torna-se referência para crianças e jovens por aquilo que pratica dentro e fora da escola. Portanto, acho complicado, por exemplo, um educador postar em redes sociais mensagens e fotos que façam apologia a condutas que não sejam coerentes com o discurso dele na escola. Desta forma, é importante que o profissional da educação mantenha sua postura profissional mesmo fora dos muros da escola.

9- Que outras mídias/ferramentas virtuais você recomenda para o aprendizado fora do ambiente escolar?

Bom, a internet já tem vídeos demais, livros demais, páginas demais, artigos demais e redes sociais demais. O desafio das escolas agora é tentar organizar tudo isso para os alunos, dar uma ajeitada em tanta informação e oferecer algumas referências iniciais de pesquisa para enriquecer o conteúdo trabalhado em sala de aula. Para isso, aposto minhas fichas no AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem – como uma ferramenta que permita o professor organizar materiais complementares de diferentes linguagens e consiga e disponibilizá-los via internet para o aluno. Aqui no Medianeira, desenvolvemos o Projeto Tecer, um AVA que vem funcionando muito bem.

É isso.

Abraço!

Vinícius Soares Pinto