A pergunta sugerida no título acima já foi debatida, discutida, revista e, de certa maneira, continua presente diariamente no modo como nos inserimos na esfera pública. Como aqui não é um espaço de reflexão hermético e rígido, propor-me-ei a traçar mais algumas questões inquietantes – e que não me deixam dormir -, principalmente a partir da leitura das ações/atos humanas no mundo.

Há alguns dias, realizando as minhas obrigações mensais em um banco da cidade (o fato de ser em um banco é mera coincidência!), me deparei com uma cena muito interessante, no mínimo instigadora. Sobre a mesa de “autoatendimento” havia um celular de brinquedo, provavelmente esquecido por uma criança. Quando estava saindo do banco, vi que um menino, acompanhado pela  mãe, pegou o celular com o objetivo de levá-lo para casa, mas, dirigindo-se para fora da instituição, ele se arrependeu e voltou para colocá-lo no lugar de origem. Até aqui, nada de novo, apenas uma cena corriqueira. O surpreendente foi quando, ao retornar à companhia da mãe, ela lhe afirmou: “Volte lá, por que você não pegou?”. No fundo, o discurso implícito foi: “deixe de ser bobo, menino! Está perdendo mais uma oportunidade de levar vantagem? Ninguém está vendo!”. Esse tipo de postura, quando provém de uma mãe, rompe com uma série de visões de mundo que, sem que queiramos, trazemos conosco e instaura algumas novas perguntas: somos honestos por que é bom? O ser humano possui uma natureza moral? Em síntese, nos faz voltar os nossos olhos para o título do nosso texto: há, na alma humana, uma bondade originária, ou a sociedade nos corrompe?

Longe de darmos respostas a essa pegadinha “quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?”, pensamos ser fundamental observarmos as nossas motivações para vivermos em sociedade e os princípios humanos e éticos financiadores do nosso modo-de-ser. Provavelmente, aquela mãe tomou uma atitude impensada, fundada em uma lógica utilitarista: “se há a possibilidade, por que não aproveitá-la?” Os problemas começam a surgir quando o objeto encontrado já não é um celular de brinquedo, mas a carteira do desconhecido, ou o dinheiro que eu posso furtar sem que “ninguém” saiba, ou a vantagem que eu posso tirar explorando o outro de X maneiras…

Problema maior são as consequências das nossas ações que, sem que muitas vezes reflitamos, nos fazem defender que a sociedade e o seu modo de organização nada mais são que uma “aparência” construída para representar “certo ideal de organização” e moralidade. Muitos foram os filósofos, literatos, pensadores que trataram a sociedade como um espaço de construção de papéis vestidos no mundo público, mas completamente ultrapassados no espaço da privatividade da vida. É como se, ao sairmos de casa (e dos desejos profundos presentes dentro de nós), usássemos uma fantasia de carnaval, mas, quando retornássemos ao obscuro espaço das nossas consciências, fôssemos apenas LOBOS vorazes ansiosos por deglutir e destruir todos aqueles que se sobrepõem à suprema vontade do nosso desejo. Triste, não? Caso essa premissa seja verdadeira, deveremos, no trato com o outro – e com as pessoas que supostamente nós mais amamos –, estampar a grande bandeira: VOCÊ ESTÁ LIDANDO COMIGO, MAS TOME CUIDADO! NA PRIMEIRA OPORTUNIDADE QUE HOUVER, EU TE MATAREI DO MODO MAIS CRUEL JÁ EXISTENTE, POIS EU AMO SUGAR O TEU SANGUE. O medo passa a integrar a estrutura básica da sociedade e assume o lugar de motor das nossas ações e intervenções com o outro, com o mundo, com o conhecimento…

Em suma, assumimos como natural a hipocrisia de alguns dos nossos atos e, como desculpa, ecoamos ao mundo aquela velha e batida frase: “a vida é assim, as coisas são assim e eu não posso fazer nada para mudá-las…”. O mais deprimente é que o reflexo desse eco convive conosco diariamente e, não poucas vezes, nos reflete, nos revela, nos desvela nas nossas pequenas ações: omissão. E alguns ainda têm a pretensão de afirmar que a ficção não é real. Só para os desatentos: isso não é ficção.

Mayco Delavy