Certa vez, há um tempo, puseram-me a seguinte questão: “porque você sobe montanhas?”. Após um breve momento, respondi “porque elas me ajudam a aprender a viver”. Retomando a questão, hoje digo que subo montanhas também porque cada caminhada, cada trilha provoca reflexões, exige reavaliações constantes e me proporciona aprendizados que nos trazem marcas, visíveis e não visíveis.

Ao lado de amigos, percorri caminhos da Serra do Mar que me levaram a lugares que fizeram minha mente silenciar diante de sua beleza inigualável e da imensidão que a vista do cume nos apresenta. E foi dentro de uma densa floresta, úmida e ruidosa, que pude perceber a fragilidade humana diante da força da natureza. Foi caminhando em montanhas que aprendi a amar a natureza.

Caminhar pelas montanhas vai além de ter nossos olhos agraciados por belas paisagens. Elas nos colocam diante da nossa essência, sempre contraditória e dualista. Em situações de risco eminente na montanha, nascem virtudes como a solidariedade e companheirismo quando, por exemplo, no meio da madrugada fria é preciso sair da barraca, esquentar um pouco de água para fazer um simples chá, aquecer um amigo e evitar o início de um estágio de hipotermia. O leitor mais crítico poderá dizer “não é preciso ir para a montanha para aprender a ser solidário e companheiro!” E eu responderei que, de certa forma, ele tem razão. Entretanto, é na montanha que aprendemos a ser solidários e companheiros sempre, não somente quando convém. Aprendemos que a vida que levamos na cidade quase sempre é individualista, consumista e ávida pelo conforto dos bens materiais.

Como educadora e montanhista, me coloco ainda outras seguintes questões: de que servirá a ciência encontrar os melhores meios para a sustentabilidade, de forma a contribuir para a preservação do nosso planeta, se ainda não encontramos uma estratégia para mudar a estrutura de pensamento consumista, alienada e devastadora da natureza? De que forma se origina, se constrói o sentimento de pertencimento à natureza em um ser humano, senão vivenciando, corporalmente e de forma intensa, a própria natureza? Como as novas gerações aprenderão a viver uma relação equilibrada com o meio ambiente se nunca vivenciaram a natureza?

Acredito que o montanhismo como uma filosofia de vida, assim como outras formas de interação com a natureza, de contemplação e interação éticas e conscientes, poderão nos auxiliar no reencontro do ser humano com a simplicidade, da vida em equilíbrio com a Natureza.

Camila Armas