Caminhamos em silêncio por algum tempo, segui o ritmo dela, e começamos a olhar em um dos campos os meninos mais velhos treinando futebol. O exercício da vez era, da boca da grande área, chutar a gol e tentar vencer o goleiro, que, por sua vez, tentava vencer os batedores, se desfazendo em pulos e defesas esforçadas. Observamos uma série de tentativas – eu com olhos de apaixonado pelo esporte e ela… só Deus sabe como ela olhava tudo aquilo. Depois de algum tempo, me perguntou: “Por que o goleiro está jogando com o braço quebrado?” Em sobressalto, foquei minha atenção no garoto – como seria possível eu não ter visto algo tão gritante assim? – e notei que ela havia confundido as luvas dele, brancas e grandes (até demais!), com um gesso para fraturas. Expliquei isso a ela e veio outra pergunta: “Pra quê?”. Para a bola não escorregar das mãos dele. E outra: “Mas não é melhor sem luvas?”. A bola pode escapar, retruquei. “Mas e o que que tem se escapar?”. Respondi que ele tomaria o gol e sugeri que ela imaginasse uma partida em que o jogo estivesse em 0x0 e ao tentar defender sem luvas a bola escapasse das mãos dele e o seu time perdesse no finalzinho do jogo, imagina? Perguntei. Quando eu achei que tinha vencido o embate sobre se o goleiro deve ou não usar luvas, veio outra pergunta: “Mas e daí? O que que tem se ele tomar o gol?” O time dele perde, respondi. Foi então que veio uma última pergunta, simples e desconcertante: “Tá, e dai?”. Não tive resposta, fiquei em silêncio e ela continuou a olhar como se o assunto não tivesse importância alguma. Seguimos o nosso cominho e sem cerimônia alguma ela deu um “tchau” rápido e nos separamos.

Continuei o meu trabalho e na hora de voltar não consegui tirar aquela conversa da cabeça, passei o resto da tarde com o assunto fervilhando – o Tico e o Teco fizeram hora extra nesse dia. Comecei a pensar que, realmente, não teria importância nenhuma tomar um gol, que a vida continuaria de qualquer forma. Pensei que na verdade, nós adultos, já estamos tão carregados de competitivade que sequer lembramos o que é fazer alguma coisa sem algum tipo de objetivo, jogar sem disputar.

Me entristeceu pensar que dentro de alguns anos será a vez dessa garotinha enfrentar os problemas do mundo. Que, na maior parte do tempo, ela terá que sobreviver – e em alguns momentos, raros, realmente viver – em uma sociedade tão violenta ao indivíduo e à sua identidade que às vezes até precisamos fazer exercícios para lembrarmos quem somos (a marca individualidade saiu da vitrine, foi para os fundos da loja e parece não ter primavera-verão que desencalhe o tal produto). Será a vez de ela usar luvas, pois agora a disputa é a valer, não podem ocorrer deslizes, senão é banco ou substituição.  Será sua vez de entrar na arena que quer apenas os vencedores, os inteligentes, os belos e que exclui quem fica na margem de tudo isso. A arena de uma sociedade egocêntrica e ultraotimista, que brada “vitória! vitória!”, mas que diante da “derrota” do indivíduo tem como unguento a exclusão.

O mais triste é que, pelo menos no Brasil, o tal sucesso de alguém é medido pela sua conta bancária. O sujeito pode ser o maior energúmeno dos trópicos, mas um pouco de dinheiro até que deixa a pessoa inteligente, não? Passa um ar sofisticado, meio europeu, dá um up no defunto! Mas também, consumindo essas porções de felicidade enlatada (a mercadoria vem dos states gente, coisa fina, de qualidade!), quem é que vai fazer figura feia? E o melhor desses enlatados é que sempre têm um sabor novo, quando a gente enjoa de um tipo de felicidade, compramos outro, e outro, e outro, afinal fome nós sempre teremos né?

A essas alturas, os dois irmãos esquilos já estavam a ponto de fazer greve por melhores condições de trabalho e eu não tinha vislumbrado a menor possibilidade de saída para um mundo melhor que pudesse ser oferecido à minha pequena amiga. Limitei-me a tentar analisar em quais pontos eu estava fazendo parte de todo esse mundo – sim, todos nós temos um pouco de culpa, ninguém escapa… Fiquei tentando imaginar em qual momento, na vida adulta, ela teria que trancafiar a sua alma de criança em um quarto escuro para poder se adaptar ao padrão e em raríssimos momentos libertá-la, meio desenxabida, para brincar de viver.

Nesse momento ouvi um sirene na minha cabeça, insight? Que nada. Eram os irmãozinhos gritando que estava na hora do café. Que bom seria se todos os meus cafés fossem precedidos por pensamentos como esses.

Julio Peripolli