Um convite para escrever não poderia resultar em outro assunto senão leitura, minha grande paixão. É sobre o entrelaçamento de leitura, memória, livros e afetos que vou tecer algumas linhas aqui.

Se a literatura está hoje presente em minha vida é porque somos aquilo que vamos colhendo nos “bosques” que atravessamos. História, de acordo com meu repertório, significa a minha mãe nos apresentando aquelas enciclopédias pesadas e cheias de páginas para tentar sanar as dúvidas representadas pelos porquês da infância; o meu pai com seus livros de cabeceira e suas revistas de atualidades e a avó querida embalando nossos sonhos de sábado à noite com os contos de fadas tradicionais ou com as histórias de ar que inventava.

Já na escola, visitei o Menino Maluquinho, uma certa fada que tinha ideias, a Isabel marcada por uma lágrima, o Zezé e o carinhoso Portuga e o Tistu com seu dedo verde. Essas visitas levaram-me a buscar e conhecer novos sendeiros como Manuel Bandeira e o gostoso ritmo de seus poemas, Drummond e os ombros que suportam o mundo, a sensibilidade de Cecília Meireles, a poesia mínima de Helena Kolody, o doce e sofrido Miguilim de Guimarães Rosa, dentre outros tantos autores, personagens e obras que me fizeram sorrir, chorar, amar e até mesmo odiar. São imagens como essas que povoam minha memória e que acesso quando falo em histórias, leituras. A palavra história fica grávida de significados quando busco na memória recordações passadas, mas também presentes. Isso porque memória não é simplesmente um passado, um ponto final, um fim em si mesma. A memória é construção, está em constante renovação. A cada nova leitura realizada, a memória é também renovada. Nela, os livros que nos desafiam, que nos afetam de alguma forma, vão morar. E ali ficam adormecidos, para despertarem com o mais delicado sussurro, provocando mais uma vez os sentimentos – ora outros, ora os mesmos.

 

Quando lemos um livro, um quadro, um filme, uma peça, um musical, enfim, um texto, deparamo-nos com alguns sinais que emanam uma motivação e que nos fazem acionar a memória, criar laços com a alma, com o coração. Esse acervo de histórias que fica em nossa memória nos faz refletir sobre o que lemos. Com a leitura, colhemos conhecimentos que são armazenados na memória; assim dá-se a interpretação, assim atribui-se à memória a condição de herança valiosa, que é renovada a cada dia. E como a memória de cada indivíduo conta com determinadas lembranças, cada leitor visita um texto de um modo, descobrindo nele diferentes tesouros. É como Helena Kolody  diz sabiamente em um de seus poemas: no poema e nas nuvens, cada um descobre o que deseja ver. É por isso que a literatura liberta e nos convida a grandes voos, voos de águia.

Abrir um livro, ver um filme, ouvir uma música, apreciar um quadro, é deixar aflorar as muitas malas contendo as bagagens da vida. É acessar memórias pessoais e coletivas e renová-las. É ler com olhos-de-ver-o-mundo, buscando o novo a partir da herança viva que se traz nas veredas da memória, é tecer as palavras liberdade, transformação e identidade – ave palavra! – com todos os seus significados, no coração e na memória. Ler é criar uma grandiosa teia de afetos que transformam o ser num contínuo e sempre novo ir-e-vir. É por isso que tenho a literatura como uma grande paixão.

Deisily de Quadros