A Cuia é um dos símbolos da cidade de São Mateus do Sul

Estrada de chão, típica de interior. Nela passam apertados dois carros, mas um deles tem que quase parar. Desde pequeno, me lembro bem, foi sempre assim. Exceto há uns 8 anos, quando foi asfaltada. Desse asfalto, que deve ter durado bem por uns 5 anos, sobrou (assim como da minha memória) uma camada irregular, formado por trechos de pedra ora mais espessos, ora mais finos. No interior, pelo menos ali, nos arredores de São Mateus do Sul, as pessoas têm um hábito estranho, visto sob os olhos dos habitantes da urbe. Falei pra minha namorada assim: “Ó, eu vou acenar pro próximo cara que estiver na estrada e ele vai dar com a mão de volta”. Ela perguntou se aquilo era sério. Eu falei: “Você vai ver”. Uma moto veio em nossa direção, ambos se direcionam para seu lado direito da pista. Eu falo “ó” e espalmo minha mão para cima, fazendo a reverência. Devolvendo o sinal, o piloto dá com a mão e abre um sorriso digno de um amigo que você não vê há anos. O ou a carona, um pouco mais tímido, retribui também. Cruzamos por mais alguns carros e, como eu havia dito, todos retribuíram o aceno.

Esse lugar aí, a uns 20 km de São Mateus do Sul (150 km de Curitiba, na direção da Lapa), chamado Cambará, foi onde meu pai nasceu. Foi lá também onde minha vó morreu vítima de uma parada cardíaca. Tentaram socorrê-la, mas ela morreu a caminho do hospital. 1983 foi um ano muito chuvoso e, por isso, andar esses 20 km em direção à cidade era penoso, mesmo tendo um bom carro, uma Caravan zero. Além disso, levou certo tempo para meus tios colocarem as correntes nas rodas para o carro poder trafegar na lama. Enfim, ela morreu no colo de um deles, já no caminho do hospital. Não era exatamente essa a história que pretendia contar. Mas ela faz parte das reminiscências. Aquilo que escapa do que eu sou, mas que está nas entranhas da minha vida, mesmo que não tenha propriamente vivido.

Essa outra história você deve achar mais interessante. É a aparição de um ovni, presenciada por meu pai, lá na casa onde nasceu, no Cambará. Ele me conta que tinha cerca de 12 ou 13 anos. O ano era de 76 ou 77.  Estavam fora de casa, ele e um cara chamado José Odovani, quando, num súbito, um objeto maior que um carro, talvez com o dobro do tamanho, desceu à altura da casa, e, da mesma direção e com a mesma velocidade que veio, voltou. A descrição é mais ou menos essa: pense em dois pratos unidos pelas bordas, esse é o formato; a cor, escura. Quando subiu, meu pai descreve como turbulência o que sentiu, arrancou todas as folhas das árvores próximas, levando consigo um rastro de fogo. Se sou meio cético com essas questões de ordem sobrenatural, nesse caso devo abrir uma exceção. Primeiro porque foi meu pai quem viu e contou. Segundo porque minha tia, Regina, após ouvir o barulho, da cozinha, correu e pôde ver, mesmo que de longe, o vulto. Terceiro porque o Sr. José viu também, ops, se bem que ele não está mais aqui pra confirmar essa história.

Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
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