Confira abaixo a letra da canção de Odair José

Letícia Magalhães

Fiquei ao mesmo tempo lisonjeada e receosa com o convite para ser colaboradora deste espaço, eis que nas orientações era permitido um texto “afrouxando o nó da grava, de jeans e camiseta”. Ufa!

Surge, então, outra inquietação; diante de tamanha liberdade, sobre o que falar?

Literatura e linguagem pareceu-me óbvio demais para uma professora de português, arriscar sobre outras paragens, ousado. Entre idas e vindas lembrei de uma outra conversa informal na escola quando alguém me contou sobre um de seus primeiros contatos com teoria da literatura: o professor mostrou que a literariedade não partia da temática, senão do trabalho com a linguagem, e, para ilustrar essa máxima, usou duas músicas falando de amor, uma (“Eu te amo”) de Chico Buarque e outra (“É o amor”) de Zezé de Camargo e Luciano – a primeira literária e a segunda não. Os demais professores que presenciaram aquele momento e eu concordamos, mas confesso que fiquei com uma pulga atrás da orelha – será o nosso cancioneiro, tão rico e popular, também um grande mecanismo de exclusão social? Por que não o brega, em todas as suas vertentes (breganejo, tecnobrega…)?

Desde a etimologia, brega não é uma palavra séria, reza a lenda que na capital baiana existia uma rua chamada Padre Manoel da Nóbrega. A via, por sua vez, era o principal acesso ao prostíbulo da região. O tempo passou, a ferrugem tomou conta da placa e apagou as duas primeiras letras do sobrenome daquele endereço que acabou conhecido como “Rua do Brega”. Essa versão, bastante difundida, vale aqui mais pela sua graça que pela veracidade. A história aponta para outra origem:

Famoso no seu tempo, o marechal Schönberg [1615-90] ditava a moda em Lisboa, onde seu nome foi aportuguesado para Chumbergas. Consta que ele foi responsável pela popularização dos vastos bigodes tufados na metrópole. Entre os adeptos estaria o governador da província de Pernambuco, o português Jerônimo de Mendonça Furtado, que por isso aqui ganhou o apelido de Chumbregas – variante do aportuguesado Chumbergas. Talvez por ser um homem não muito bem quisto na colônia, o apelido deu origem ao adjetivo xumbrega: “coisa ruim”, “ordinária”. E talvez por ser um homem também da folia, surgiu o verbo xumbregar, que inicialmente teve o sentido de “embriagar-se” e depois veio a adquirir o de “bolinar”, “garanhar”. Dedução lógica: de coisa ruim a bebedeira e atos libidinosos as palavras xumbrega ou xumbregar chegaram aos anos 60 do século XX na forma reduzida brega, designando zonas de prostituição no Nordeste – locais onde se bebe, se bolina e se ouve cantores cafonas como Waldick Soriano e Odair José. E o que inicialmente era substantivo, “música de brega”, acabou virando adjetivo, “música brega” – numa já distante referência a um certo marechal alemão chamado Schönberg. (ARAÚJO, Paulo Cesar de. “Waldick Soriano e o mistério do brega ”. In: Rev. USP  nº 87. São Paulo, 2010).

Romântica, facilmente identificável e, arrisco, a mais consumida no país, o rótulo demorou para ser aceito, inclusive pelos seus feitores e apreciadores. Sim, quem gosta de ter seu nome identificado a algo pejorativo? Voltando àquele início de conversa, que professor diria a seus alunos o valor da música brega? Na ocasião da morte do Wando, além das calcinhas, muito se falou sobre o gosto musical cafona e escondido de cada um. Aí eu pergunto, quando belamente o mesmo Chico Buarque de “Ah, se já perdemos a noção da hora/ Se juntos já jogamos tudo fora/ Me conta agora como hei de partir” fala que “Quero ficar no teu corpo/ Feito tatuagem/ Que é pra te dar coragem/ Prá seguir viagem/ Quando a noite vem…” não é o amor na sua forma mais lasciva e, cafona?

Por que alguns compositores e composições são ridicularizadas e outras não?

Será mesmo somente pela facilidade melódica e poética que tais composições – comerciais, simplificadas, sentimentais – têm tamanha rejeição? Opa, falei rejeição? Errei, faz sucesso estrondoso, movimenta a economia e fala do tema mais falado de toda a tradição ocidental, de Homero à Calypso. Afinal, onde mora o mistério do brega?

Aposto numa possível identidade. Me explico: os formadores de opinião, nós inclusive, sim, aqueles professores lá de cima, do começo do texto, teorizamos sobre um apartheid entre brasis, da nossa carteira de identidade curitibana que é brasileira mas não é sambista e carnavalesca, que mora num país imenso, da alegria e do futebol, e também da miséria, violência e fome. Enfim, da música erudita e da música brega.

Seria um voo muito alto dizer que na música (seja ela de qualquer nacionalidade, idade, cor ou religião, com artistas de maior ou menor talento e composições de boa ou má qualidade) perpetuamos a máxima de que brega é ruim porque retrata aquele Brasil que queremos esconder? Aquele imenso Brasil profundo, pobre e maior? Aquele que trata, infelizmente, seus compatriotas como vira-latas e não quer ouvir de resposta “Eu não sou cachorro não”?

O verdadeiro mistério do brega fica para estudiosos do assunto, a minha pulga atrás da orelha acho que era essa. De quebra ainda fiz confissões e assumi a minha admiração mais profunda ao estilo, porém, como o objetivo aqui não é ser panfletária, deixo-os com Odair José numa crônica; ou, quem sabe, para cantarolar ao pé do ouvido:

“Deixe essa vergonha de lado”

Eu já sei que essa casa onde você diz morar
Onde todo dia no portão eu venho lhe esperar
não é a sua casa

Eu já sei que o seu quarto fica lá no fundo
E se você pudesse fugir desse mundo e nunca mais
voltar

Eu já sei que esse garoto que você leva pra brincar
E que todo dia na escola você vai buscar
não é o seu irmão

Ele é filho dessa gente importante
E às vezes também é seu por um instante
Apenas dentro do seu coração

Deixe essa vergonha de lado!
Pois nada disso tem valor
Por você ser uma simples empregada
não vai modificar o meu amor

Eu já sei porque você não me convida pra entrar
E se falo nessas coisas, você procura disfarçar
Fingindo não entender

Eu já sei porque você não me apresenta seus pais
Eu entendo a razão de tudo isso que você faz:
É medo de me perder

Eu já sei que na verdade nada disso você quis
você simplesmente pensou em ser feliz
Aí, não quis dizer
Mas você tem uma coisa, pode ter certeza
O amor que você tem por mim é a maior riqueza
Que eu preciso ter

Deixe essa vergonha de lado!
Pois nada disso tem valor
Por você ser uma simples empregada
não vai modificar o meu amor

Obs: Evidente que gosto é gosto, mas, nesse caso, discordo de Nelson Rodrigues (“Toda unanimidade é burra”) pois há uma que respeito: que ninguém tenha se desapaixonado de Chico Buarque!