Perco a conta de quantas vezes fui alvo dessa pergunta. Pegadinha? Não. Apenas questionamento de um pequeno garoto. Pois é, sabe aquela mania que muita gente tem de deixar pra amanhã? Fuga ou não, por qualquer motivo, lá vem a saída estratégica de prometer pra amanhã (alguns gostam daquela palavrinha feia: “é a procrastinação”).

O fato é que, numa dessas, fui surpreendida pela perguntinha que dá título a esse texto. Acontece que o prometido pra amanhã era interesse imediato de uma criança de 3 anos, no caso, meu filho. E foi aí que ele lascou pela primeira vez a pergunta que nunca mais parou de me inquietar. Não tive dúvidas e respondi que “não, hoje não é amanhã. Amanhã é outro dia. Primeiro vai ficar noite, você vai dormir e quando acordar e, já for dia, já é amanhã.” Aí é que mora o problema: daí não seria mais amanhã, seria hoje. E agora? Como sair dessa? Nunca mais parei de filosofar em torno dessa pergunta, que muitas vezes mais me foi feita pelo mesmo sujeitinho impiedoso e apressado.

A pressa sobre a promessa, a pressa de crescer, a pressa de chegar (“a gente já chegou?”). É assim que uma criança encara o tempo que, de tão relativo, nos aproxima ou nos afasta do amanhã. Parece que são os objetivos que plantamos para o amanhã que fazem girar a roda do tempo, lenta ou apressadamente. E assim chegamos a cada amanhã prometido, e é fácil continuar prometendo, pois o amanhã de ontem se tornou hoje. Ou seja, ele só foi amanhã enquanto ontem foi hoje. O amanhã de ontem não existe mais, pois hoje se tornou referencial de um novo amanhã. Agora veja se entende o porquê dessa perguntinha inocente ter me tirado a paz.

Li, certa vez, um poema intitulado “Adiamento”, de Álvaro de Campos (um dos heterônimos de Fernando Pessoa), cujos versos fomentaram ainda mais as reflexões anteriores. Ele dizia assim: “Hoje quero preparar-me, /Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…/Ele é que é decisivo.” E continuava: […] Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?/ Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, /Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…/ Antes, não…” – ai…ai… agora apareceu o depois de amanhã pra complicar a minha situação.

Enfim, poderia simplificar as coisas e, aceitando a linearidade entre passado, presente e futuro, ficar em paz. As respostas prontas pacificam, mas acomodam, tiram a graça do diferencial humano, que é se pôr a pensar, a indagar, a passar a vida buscando respostas e percebendo que elas são relativas, como o tempo. Passado, presente e futuro se fundem numa confusão de bilhões de anos necessários para transformar a vida de ontem na de hoje, que será a de amanhã. E aí está a grande beleza de tudo: a interligação da vida pelo tempo. É o dar-se conta disso que elimina aquela sensação desagradável de que o tempo não tem volta e de que tudo ficou para trás; de que passamos a vida acreditando que o espetáculo seria apenas amanhã, mas que nos esquecemos de comprar os bilhetes.

Se somos fruto de longínquas explosões estelares, carregamos um passado e um profundo compromisso com o futuro, que depende da vida de hoje. E a vida de hoje se faz de pequenos detalhes, momentos, expectativas sobre o amanhã e lutas para realizá-las. Tantos amanhãs se diluíram e viraram hoje? Então já temos um ontem mais extenso, de tantos hojes que ficaram pra trás?

Prometemos o amanhã todos os dias e, de repente, nos damos conta que… ele chegou. A misteriosa lente do tempo que enruga a pele e faz rever a vida, nos faz também perceber o valor e o significado de cada minuto vivido. Assim como a compreensão de uma criança sobre o tempo se torna mais complexa. Depois de muitas vezes feita a mim a tal pergunta, percebi que ela foi rareando, e com isso parecia que a criança ia compreendendo a relatividade do tempo. Ou já não seria mais uma criança? E foi quando a criança deixou de perguntar que percebi que não havia mais criança. Por isso, termino citando Caetano Veloso, cujos versos, que antes me pareciam apenas um jogo sonoro de palavras, se encheram de significado. Sim, depois de ver o tempo transformando a criança em quase adulto, junto com tantas outras compreensões que se fizeram ou se transformaram, assim também esses versos: “és um senhor tão bonito/ Quanto a cara do meu filho/ Tempo tempo tempo tempo…

Agora posso responder à pergunta inicial: sim, hoje já é amanhã.

Martinha Vieira