Ao pensar em futuro e tecnologia é bem provável que me pegue pensando em cenários distópicos de obras literárias e cinematográficas, como por exemplo os ambientes minimalistas do Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e as vidas vigiadas e cercadas por telas do profético 1984, de George Orwell. No entanto, também não posso negar que, dependendo do dia, em pleno bom-humor, é possível que a primeira lembrança seja o ambiente divertido e funcional em que vivem os personagens do desenho The Jetsons. Enfim, analisar tecnologia a partir das suas possibilidades de aplicabilidade na qualidade de vida, como educação, lazer, saúde, transporte, entre tantos outros, é como a antiga estória do copo com água pela metade: pode ser observado como meio vazio ou meio cheio.

O argumento do observador que enxerga o copo meio vazio poder ser de que a tecnologia desumaniza a sala de aula. Talvez visualize o ambiente escolar repleto de telas interativas, alunos que substituem os livros e cadernos por tablets, um ambiente de sala de aula minimalista, onde alunos em suas carteiras conseguem trabalhar de maneira individual e, com acesso à internet, tem um mundo de informações à sua disposição, com muito mais explicações que qualquer professor poderia oferecer. Além do mais, se comunicam entre colegas por chat e sms, evitando o contato físico, e suas dúvidas são tiradas exclusivamente por tutores e professores não presenciais mediados por telas de cristal líquido. Também por que não pensar que as crianças das séries iniciais deixariam de lado, por exemplo, a experiência do feijãozinho no algodão para simular o mesmo processo por meio de um tablet? Afinal, encurtaria o período normal da experiência, otimizando o tempo e evitando que as crianças se sujassem, não? Bom, provavelmente, tanto o medo e a falta de intimidade com a tecnologia, quanto o entusiasmo sem bom senso pelas maravilhas do mundo moderno, podem fazer alguém acreditar no cenário apocalíptico descrito acima como uma sinônimo de tecnologia aplicada na educação.

No entanto, o copo pode estar meio cheio ao pensarmos que as ferramentas tecnológicas, quando analisadas e contextualizadas no ambiente escolar, tendo em vista este como um espaço dedicado ao aprendizado e no cuidado com as relações sociais, fundamental na formação de visão de mundo do indivíduo, podem ampliar o leque de opções no modo de auxiliar na construção do saber. O exemplo dado anteriormente sobre as crianças utilizarem um tablet para a experiência do feijão relata uma estratégia medíocre, pois não faz sentido a substituição de uma experiência em que o contato direto do aluno com objeto de estudo é fundamental para a compreensão e percepção de diferentes fatores. Porém, aplicar por exemplo a utilização de softwares para a explicação de conteúdos como astronomia, em que a experiência presencial e imediata com os diferentes elementos do espaço é impossível, com certeza, a utilização de ferramentas de mediação tornarão a experiência do estudo mais relevante para o aluno. Também é interessante pensar em soluções que as instituições de ensino possam adotar para disponibilizar materiais complementares de estudo para os estudantes, estratégias de ensino que sejam iniciadas em ambientes virtuais por meio de conteúdo audiovisual e, continuamente, explorado o processo de investigação e da inteligência coletiva em sala de aula, sem mais precisar obrigar trinta alunos a ficarem estáticos enquanto apenas escutam o conteúdo proveniente de um único emissor. Ou seja, um dos caminhos é explorar a tecnologia e aplicá-la de acordo com a necessidade de cada disciplina e educador, por mais que seja um processo lento e que exija, acima de tudo, vontade dos professores em querer desenvolver estratégias que consigam explorar os diferentes recursos das novas tecnologias.

Um exemplo prático de como a tecnologia pode humanizar a sala de aula? Assista, logo abaixo, à palestra do educador Salman Khan e preste atenção em seus argumentos.

Abraço

Vinícius Soares Pinto