Trinta e três graus e meio na sombra: é o que acusa o termômetro. De modo que tenho aí um álibi pelo que escrevo adiante.

Nesse caso, o tempo é mais distante que a extensão física entre o local em que estou a narrar e aquele em que tal episódio se sucedeu.

Certa noite, anos atrás, seriam quatro? Cinco, talvez… seu olhar fixo me desviou a atenção. Quase dez da noite, tardava e eu procurava negociar uma casa para alugar por alguns dias – sou péssimo nisso, culpa quem sabe da ausência de uma mísera gotinha de sangue que procedesse das bandas que ficam pra lá de Marrakesh e Istambul – e eis que o menino nem piscava, pupilas dilatadas apontadas para a cerca que delimitava a parte frontal do terreno da casa, naquela servidão, como chamam em terras costeiras catarinenses, as curtas ruas fechadas.

Questão de décimos de segundo para eu traçar imaginariamente uma reta que partia dos olhos negros do garoto até algum ponto qualquer da tal cerca. Demorei bem mais que frações de segundo, contudo, para descobrir qual era o alvo de seu olhar matreiro. Outrora já havia rabiscado num poema e comentado com alguém, não lembro quem, que o olhar desse meu filho era uma seta guarani incrivelmente certeira, capaz de apanhar a presa, para o bem e para o mal. Embora caiba aqui confessar minha tremenda dificuldade de precisar o que é bem e o que é mal. Ambas as instâncias – nem tão antíteses quanto lhe desejem – parecem brincar numa haste absolutamente flexível, ora cada qual está numa de suas extremidades, ora escorregam e se encontram no centro e assim vai…

Por fim, descobri o que ele flagrava e demorava propositalmente em seu inabalável olhar como se estivesse tomado por alguma psicose, ou estivesse tentando hipnotizar alguém. Pensando bem, conseguiu. Ao menos a minha atenção por ele havia sido fisgada. Essa atenção tantas e tantas vezes por ele reclamada… Descobri o foco de seu olhar muito mais pela luz dos faróis de um carro que subitamente dobrou a esquina, enveredando para a servidão em que estávamos, e isso foi o suficiente para perceber que o clarão emitido pelo veículo provocou um rápido e curto movimento no fundo plano e levemente áspero da cerca. Quatro rápidas passadas, intercalando as patas do lado direito e esquerdo, enquanto saracoteava a cauda longa, roliça e fina. Uma lagartixa, incrivelmente – e sabiamente – vestida na mesma tonalidade da velha ripa da cerca, surrada pelo vento e pela maresia, esquecida pelo tempo a ponto de lhe crescer, ainda que vacilante, uma crespa barba de pequenos liquens cinza-esverdeados. Mimetismo! – (lembro-me) disparou o professor de Biologia já faz mais de três décadas quando frequentava o cursinho, acreditando que me preparava para ser um dentre os que escapariam do matadouro, ou melhor, de mais um ano de estudo em cursinho, desta feita sem bolsa e, possivelmente, sem a torcida e a confiança dos pais e amigos.

Ocorre que nem o caprichoso mimetismo disfarçara o olhar do menino, que se crivara no réptil há pelo menos mais de quinze segundos, ao menos desde que eu percebi o inusitado e imóvel ato da mirada. De modo que a narrativa do ato, portanto, está inescrupulosamente bem mais demorada do que o fato em si. Uma mirada de menos de meio metro de distância entre o observador e o alvo, sem piscar, sem mexer a retina, dezesseis, dezessete, dezoito e… o mais surpreendente aconteceu. Ligeiro, ágil e certeiro como o disparo da língua do camaleão, o bote da serpente ou, de novo, a flecha guarani, eis que o rapazinho ergue o seu braço direito que parecia inerte, descansado junto ao quadril, escancara os cinco dedos de sua mão direita e no mesmo movimento captura a lagartixa pelo seu delgado tronco. Nem se debateu, nem esboçou reação o bicho, como se tivesse anestesiado, dopado pelo referido olhar.

Fiquei atônito. Como se não acreditasse no que vira. Mas, constatei que realmente ele o pegara, dada a surpresa dos demais: o casal de caiçaras que se propunha a alugar a casa em cuja cerca o episódio se desenvolvia, e minha mulher, que, embora como mãe, conhecia o moleque melhor de que eu, também não supunha tal habilidade, caracteristicamente – e geneticamente – selvagem. (E que não a civilizem, pensei furtivamente). Apenas as gêmeas, suas manas, muito novinhas então, três ou quatro anos de idade, nada perceberam, ocupadas que estavam em suas compartilhadas imaginações tecidas em intermináveis estórias, invariavelmente tagareladas.

Outras vezes se sucederam, não tantas, já que no planalto curitibano escasseiam as lagartixas e outros répteis, em que o menino, então já um pouco mais crescido, mas ainda um menino, praticara tal caçada. Em cada vez que presenciei, sempre achei impressionante. Mas não mais como daquela vez. A gente acaba se acostumando. Agora que o menino já adolesce e tais sagacidades ficam escanteadas, então bate a lembrança como um vento quente que não ajuda a refrescar. Não obstante, e por tinhoso, fui conferir: o mercúrio agora bate a marca dos trinta e dois graus, os ventos estão excitados pelo calor e as nuvens se avolumam, coroando a Serra do Tabuleiro.

E quanto à lagartixa da cerca? Bem… ela logo recebeu um nome de batismo: “Gelatina” conviveu aqueles dias na casa de praia, no quarto do menino, papando mosquitos e aranhas. De vez em quando ela sumia. Quando se pensava no pior, pronto: estava lá ela de volta, pedacinho a menos da cauda, mas era ela, toda Gelatina, ora imóvel, ora serelepe, coisa de réptil.

Sobreviveu à curta temporada do menino e sua família na praia e mais ainda: subiu a serra, embarcada que estava numa caixa de sapato, sem dúvida um aposento cinco estrelas, e passou seus primeiros e últimos dias em Curitiba.

Francisco Carlos Rehme, o Chicho.