- Cidade de Tiraspol, na Transnístria -

Não é que tem jogador brasileiro (de futebol, é evidente) na Transnístria! Trans… o quê? Sem dúvida alguma, apesar de minha formação e exercício puramente geográfico, tenho que humildemente confessar minha ignorância. Até esses dias, antes de encontrar o ótimo artigo do jornalista Fabiano Maisonnave, entitulado República Fantasma na Folha de São Paulo (05/12/2011), eu não me recordo de ter visto alguma vez num bom atlas esse território. Transnístria!!

Em todos os casos, deixe-me esforçar na lembrança (puxo-a como se abrisse o índice remissivo)… Trans… em minha infância, nos anos 70, a mídia badalava a Transamazônica. Obra fenomenal, épica, uma odisseia desbravando a selva. De fato foi desbravando literalmente, abrindo uma longa clareira quase retilínea, por onde se acreditava na época, passariam os automóveis, caminhões, ônibus, enfim toda essa modernidade sobre rodas e movida a petróleo. Não se comentava então a respeito da defesa da Floresta Equatorial e tampouco do aquecimento gerado pelos gases estufa. Sejamos justos: haviam sim raros visionários “ensandecidos”, como queriam que considerássemos alguns dentre os “subversivos” daqueles idos. Doidos idos doídos de ódio aqueles anos.  O projeto como tal naufragou na lamaceira, desbotou em meios às chuvas torrenciais, enfim, na inviabilidade de se impor sobre o anecúmeno amazônico. Bem feito aos que pensam, um tanto arrogantemente que as invencionices da tecnologia dobram até retorcer as fibras da natureza, submetendo-as sob tortura às nossas vãs e passageiras vontades. Os bilhões de dólares, esses não naufragaram, certamente foram salvos em contas de apadrinhados da ditadura, entre políticos do alto e médio escalão e diretores de empreiteiras, grileiros de terras e por aí afora.

Foi por essa mesma época em que ouvi também tratar de Transjordânia. Hoje pouco nos referimos a essa região. Esquecida está a Transjordânia, pois não dá ibope, uma vez que parece (será?) que está mais segura, digamos menos tensa, do que as vizinhas e amuradas terras, do outro lado do rio Jordão. Lá está a Cis… a Cisjordânia. Bem, essa aí está tanto longe da paz quanto de uma maior equidade social, econômica e política entre israelenses e palestinos que ali habitam.

Um pouco mais tarde é que me deparei com a Transilvânia enquanto região de fato, real e não apenas como terra da ficção draculiana. Podia ter descoberto antes, no tempo em que só largava um romance do Júlio Verne para iniciar outro, caso tivesse aleatoriamente retirado da prateleira a obra O Castelo dos Cárpatos. A aventura é encenada na Transilvânia, como acabei conferindo recentemente, na breve ociosidade de um feriado. A Transilvânia é uma parte do oeste da Romênia, que como um todo (o que em superfície não é muito) é uma salada étnica. Aliás, os romenos tem muito a ver com a tal Transnístria que, enfim, motivou essa conversa toda.

Deixemos a Transnístria para daqui a pouco. Temos tempo. Já que relacionei uma região do leste europeu com literatura juvenil clássica, deixe-se levar mais adiante na direção leste, por alguns milhares de quilômetros, sobre trilhos cravados em solo russo. Siga na legendária Transberiana, embalado pelo chacoalhar do trem e pela leitura do Doutor Jivago, de Boris Pasternak, uma explícita obra que transpira aversão aos primeiros anos dos bolcheviques no poder da então União Soviética. A Transiberiana, a despeito de socialismo ou dos tempos pós-Gorbachev, continua embalando fantasias e revelando contrastes ambientais e culturais ao longo do mais extenso país do mundo (e que, de quebra, tem muito a ver com a Transnístria também).

Creio que agora podemos finalmente chegar a esse, até então desconhecido de minha parte, pedaço da Moldova. Moldova que, por sua vez, ainda é um vocábulo cheirando a novo nos mapas do mundo (tem vinte anos, se fosse gente seria bem jovem, imagine então como país!)

Pois descobri no pequeno mapa que acompanha o artigo jornalístico ao qual já me referi, que a república separatista da Transnístria, que revela sua clara intenção de se divorciar da Moldova, é uma estreitíssima faixa de terras, (algumas partes com menos da metade da largura do município de Curitiba e cerca de duzentos quilômetros de comprimento, como a distância de Curitiba à Balneário Camboriú). Seu território demarca a fronteira leste de Moldova com a Ucrânia. Entre o meio milhão de pessoas que ali vivem, está Fred, um dos poucos negros em Tiraspol, a principal cidade da Transnístria. Baiano de nascimento, faz quatro anos que largou o Francisco Beltrão (o aurianilado do sudoeste paranaense) para se tornar um dos principais jogadores do Tiraspol.

O isolamento é tamanho (quem sabe Transístria também um dia já se chamou de Desterro) por aquelas bandas, que o atleta se surpreendeu com o fato de ter sido procurado para uma entrevista com um jornalista conterrâneo. De fato, Transnístria é um desses lugares que você conclui que a globalização até pode ter chegado, mas que não está nada à vontade por lá. O próprio futebol, que é um dos veículos mais eficazes do fenômeno da globalização, ainda engatinha, trazendo para o estádio local apenas 200 pessoas por jogo no campeonato moldavo. Mais significativo ainda: a Transnístria bem que poderia ter sido o cenário do célebre filme “Adeus Lênin”. Parodiando a sétima arte, caso alguém tivesse dormido os últimos vinte anos, e passeasse pelas ruas de Tiraspol, teria plena certeza de estar no interior da União Soviética. A bandeira oficial transnistra ostenta ainda a foice e o martelo, viaturas Lada da polícia circulam junto dos ônibus elétricos enferrujados, em meio a blocos uniformes de apartamentos, fábricas cinzentas e estátuas de Lênin que sequer balançaram em 1991. O lugar em que o tempo parou?

Bandeira oficial da Transnístria

Certamente que não, mas que os ponteiros dos relógios da Transnístria cadenciam num ritmo mais lento, isso a gente pode suspeitar. A expectativa de sua população pela autonomia em relação à Moldova, porém não acompanha esse ritmo nostálgico do tempo. Apesar de não ter a sua independência reconhecida nem mesmo pela aliada Rússia, a Transnístria tem presidente, parlamento, moeda, bandeira, controles fronteiriços próprios. Possivelmente trata-se de concessões conquistadas após uma guerra civil desencadeada em 1992…  e que passou longe das câmeras de tevê que naquela mesma época capturavam os dramas diários de outra guerra, com certeza com mais vítimas,  mais audiência e que se encenava nas ruas de Serajevo, hoje capital da Bósnia-Herzegovina.

Que me desculpem os inguchétios, os ossétios do norte e do sul, os tártaros, os chechenos e, é claro, os transnístrios, mas, caso o êxito dos movimentos separatistas na região se concretize, o mapa dessa porção encravada entre a Europa e a Ásia, pelo nome dos novos territórios – a toponímia -,  irá lembrar mais a tabela de elementos químicos.

Francisco Rehme, o Chicho.