Estação da Luz. O ano… devia ser 1972 ou 73, não sei ao certo. Apenas posso garantir que não havia completado dez anos. Do parapeito de um corredor do andar superior espreitava entre ansioso e admirado os comboios que permaneciam perfilados.  Quando criança tudo é imenso e as sensações são mais intensas. (Aplicamos morfina aos nervos com o decorrer dos anos?) A verdade é que era tão profundamente belo quanto moderno aquele prateado, inteiramente prateado trem que seguiria para Jundiaí. Os passageiros já estavam em seus lugares. Não demorou muito, houve um primeiro soco, um sacolejo, e ele se foi, fumando e faiscando pelas rodas.

Saboreei a palavra que soava pelos alto-falantes, anunciando a chegada de outro trem: Sorocabana.  (Mais tarde ouviria uma música em cuja letra essa palavra ressoava forte, sonora, agradável. Acho que era de Guilherme Arantes. Talvez.) Era outro prateado. O metálico das naves que começavam a singrar o espaço entre a Terra e a Lua era realmente o tom da sofisticação, da tecnologia e do luxo. Isso tudo encantava. Parecia que o ano 2000, com tudo aquilo que os filmes nos prometiam, estava tal e qual chegando. (Descobri posteriormente que ele chegou bem aquém do que se projetava).

E então era nossa vez de embarcar. Santa Cruz, esse era o nome do trem. Às onze da noite ele partiria. Atravessaria a fria madrugada do vale do Paraíba, para amanhecer nas cálidas margens da baía da Guanabara. De São Paulo ao Rio, trezentos a quatrocentos quilômetros sobre os trilhos. Eu e esse senhor, meu pai, (puxa, ele tinha na época dez anos a menos do que hoje possuo…) embarcamos na cabine.

Cabine! Outro charme futurista. É verdade que na Europa trens com cabine, com beliche e ainda vagão restaurante há décadas ganiam pelos trilhos. Não quebrei o encanto: isso para mim era a pura modernidade. E mais: fazia pouco que havia visto (em HQ a gente vê mais do que lê, ou seria o contrário?) num dos álbuns do repórter Tintim, um trem com esses incrementos todos (lia com tanto gosto, que seria mais real afirmar “havia lido, me esbaldado, babado sobre o livro”). De modo que estávamos, o pai e eu, os dois franciscos, os dois franciscos da Cecília, na cabine da ferronave metálica, o Santa Cruz, começando a chacoalhar rumo ao Rio, que eu sempre imaginava uma cidade de braços abertos, como um reflexo urbano da imagem do alto do Corcovado.

Era noite, não vi nada além das luzes dos bairros paulistanos a beira da ferrovia. Aos poucos essas luzes falhavam. As pálpebras pesavam, a periferia, as cidades se distanciavam umas das outras…

Acordei perto das seis. Corrijo: fui acordado pelo entusiasmo da fala de meu pai: “Olha, filho, olha o Maracanã!”

Inesquecível… o Maracanã (  ) ou o prazer de meu pai em descobrir e poder apresentar ao filho, apaixonado pelo futebol, o templo da bola (  )? É difícil precisar, na dúvida marco um “x” nos dois!

Digamos que esperava um pouco mais do Maracanã. Mas, entendo: o trem passava a uma certa distância. Então, de longe, por fora, daquele ângulo que se alargava a uma velocidade de cerca de 50 ou 60 quilômetros horários, ele não parecia muito maior do que o Belfort Duarte (atual Couto Pereira), e olha que a curva da Igreja do Perpétuo Socorro ainda não estava concluída. Claro que se tivéssemos entrado no gigantesco Mário Filho, que naquela época, não sei como, mas comportava – e espremia – duzentas mil pessoas, não haveria como não ficar boquiaberto, especialmente se me abancasse num dos últimos degraus da arquibancada superior. Lá de cima os jogadores e a bola ficariam menores dos que formavam meus times de botão. Menos o goleiro, que teria de ser mais largo do que alto, para seguir o padrão da caixinha de fósforo revestida com as cores e o escudinho do clube.

O Maracanã passou, e com ele a Zona Oeste do Rio. O trem chegava a seu destino, a Estação Central do Brasil.

Não lembro bem se fui recebido com braços abertos, não havia ninguém em carne e osso para tanto. Recordo-me do mormaço, apesar de julho, de uma musicalidade própria que ressoava por diversos locais mais povoados da cidade, som de muitas vozes que volta e meia finalizavam uma palavra com chiado e numa ruidosa alegria. Ao fundo, de algum canto da praça, um batuque gostoso (e quando o sangue alemão se engraça pelo batuque é porque de fato ele deve ser muito bom) sonorizava o cenário que se iluminava. O trem já não resfolegava mais; quieto, agora apenas relaxava esperando chegar a hora de levar consigo outras pessoas, outros devaneios pela eternidade afora.

Francisco Rehme, o Chicho.