Tive oportunidade de acompanhar alguns bate-papos com os escritores, bem como de assistir a espetáculos de teatro, dança, música, artes plásticas e cinema apresentados durante a semana do FLIM e do Mediarte. Comentei com alguns colegas que rejuvenesço profissionalmente e espiritualmente diante de tais manifestações de arte e sensibilidade emanada por crianças de seis anos ou por outra que se aproxima dos oitenta, como é o caso do maravilhoso Inácio de Loyola Brandão. Como numa floresta em que se trocam exalações e respirações, bebi dessas cristalinas águas e viajei no tempo.

Nunca se bebe da mesma fonte. Isso está longe de ser novidade, pois lembro-me de que Sidarta do Hesse já se referiu assim não especificamente à fonte, mas ao seu prolongamento e eterna descendência  que é o próprio rio. Mas, é uma reconhecida verdade. De modo que volto a buscar as rejuvenescidas e bentas águas da mesma cuba.

Então, ocorre que gosto de explorar composições por mim ainda não conhecidas dos Beatles. Classificar assim como “não conhecidas” talvez não fosse o mais apropriado, mas provavelmente seria mais correto crer que busco descobrir canções que me passaram despercebidas em outros tantos tempos. E, cá entre nós, simples mortais que engrossamos as filas dos que reverenciam os quatro meninos de Liverpool: isso não se esgota. Como também isso não envelhece, sequer amarelece, afrouxa, nada… nenhum sinal de ferrugem.

The Beatles

Aliás, dos quatro, dois andam animando os céus, entoando inéditas – celestiais – canções. John certamente encontrou muitos adeptos a sua tese do “Give Peace a Chance” e George entoa mantras pelas cordas das cítaras em meio a arcanjos e uma série de entes procedentes de Agra e Nova Delhi.

Bem acabo de (re)descobrir uma dessas canções. Não sei o seu nome, apenas atenderá aos futuros chamados da minha memória pelo número 187 de um determinado CD em que o Olindo me gravou uma extensa coletânea. Em princípio chamá-la meramente por um número poderia ser um sacrilégio a uma música dos Beatles, mas… lembro-me de “number nine… number nine…number nine” e assim entre baladas, rock’n’roll, blues, progressivos e até valsas, há psicodelices e nisso, cabe também uma referência talvez menos lisonjeira, apenas menos lisonjeira de ser a centésima octagésima sétima música de um cd.

No mesmo fluxo de pensamento: preciso entrar na biblioteca pública, setor de romances juvenis, ficção e procurar, procurar, procurar… sei que há dezenas de livros de Júlio Verne que não os li quando tinha os dez, onze, doze anos. Lembro-me de ter me esbaldado numa estante (felizmente ela era baixa) onde haviam vários desses romances, alguns dividindo um mesmo livro. Isso mesmo: um livro e duas aventuras de Verne!  Eles estavam entre os já por mim conhecidos e então lidos Miguel Strogoff, Cinco semanas em um balão, Ilha misteriosa, Vinte mil léguas submarinas, O farol do fim do mundo, Viagem ao centro da Terra, A volta ao mundo em oitenta dias, Robur o conquistador, Os filhos do capitão Grant… obras que devorava em horas intermináveis das noites a meia-luz para que os pais não percebessem ou no sofá de almofadas coloridas da biblioteca de meu pai, na Hugo Simas, no Bom Retiro.

Das vezes de que fui com a Dona Cecília, minha mãe, à Biblioteca Pública, um deles foi inesquecível. Minto, algo não é mais recordado, pois o título se foi, esquecido entre as dobras das páginas sentidas e não escritas de meu diário. Ih… o enredo também o esqueci. Mas, tenham certeza de uma coisa: foi inesquecível o prazer que a aventura se me revelou. Essa sensação foi indescritível e lá se vão trinta e cinco anos ou mais… A surpresa diante de tantos títulos que jamais havia visto ou ouvido, foi outro sentimento inolvidável. – ouço agora Come Togheter.

Então, eis que uma hora dessas me decido e invado a biblioteca pública de minhas lembranças. Mesmo temendo duas coisas. Primeiramente, que aqueles livros que em minha infância já estavam surrados pelo tempo, tenham sido sumariamente eliminados… e segundo – e pior ainda – que mesmo que eu ache tais obras – ou duvido muito, mas vá lá: alguma reedição – então, eu não encontre, nem de perto, aquela emoção ao ler as primeiras palavras que solenemente abrem cada estória. (E isso é muito provável).

Ainda assim e em tempo, tomarei coragem, reunirei minhas forças e tomarei de assalto aquele prédio sito na Rua Carlos de Carvalho, diante do Hotel Iguaçu… Epa! Um lapso (de tempo também): já faz uma data que não é mais Iguaçu, agora é Bourbon. Bourbon oh!!! Modernidade: trocar o tupi pelo francês…???….!!!….

Francisco Carlos Rehme, o Chicho