Eu sempre fui curioso pra saber como funcionava a vida das pessoas famosas que eu admirava. Nunca fui, contudo, um fã louco que gritava de histeria ou que buscava, obcecado, essas informações. Sempre foi curiosidade, apenas. Nada mais que isso.

Semana passada uma dessas chances caiu no meu colo. Gostaria de ser um grande fã dele (o que seria razoável), mas simplesmente nunca tive tanto contato. Por exemplo, li o instigante Não Verás País Nenhum. E o meu contato com ele, portanto e infelizmente, foi só esse. Mas confesso, entretanto, que o livro me marcou. Voltando à chance que caiu em meu colo: fui convidado a buscá-lo no aeroporto, levá-lo ao hotel, buscá-lo no hotel, trazer para o colégio, levar de volta ao hotel, incluindo a honra de almoçar com ele. Claro que aceitei prontamente.

Tomo conhecimento, de antemão, que viriam junto seu irmão e sobrinho, no mesmo voo. Logo na chegada, depois dos cumprimentos de boas vindas, ele fala: “Tem lugar pra nós todos? Se não tiver, já deixei 15 reais separados para o táxi”, no melhor bom humor de um não curitibano. Seguindo o caminho em direção ao hotel, sou perguntado se conheço a rua Dom Pedro II e digo que não. Mas descubro o endereço pelo GPS do celular e falo que sim, que posso levar o irmão e o sobrinho até outro hotel, não muito longe do destino final. Sobrinho relutando, Ignácio fala, quando todos descem carro no primeiro destino: “Diego, olha aqui, será que você poderia presentear meu irmão e meu sobrinho levando eles até o hotel por conta da primeira visita à cidade?”. “Claro, com o maior prazer”, eu respondo.

Na manhã seguinte, vou até o hotel e o levo até o colégio. O bom é que o trânsito de Curitiba permite que as pessoas conversem por um bom tempo dentro dos carros. Foi aí que ele me contou o porquê de seu irmão estar viajando, a escolha por Curitiba, porque eles fizeram o passeio de trem pela Serra do Mar. Foi ali também que ele me contou que sua filha lançara na última noite um cd com participação especial de Chico Buarque. Foi quando descobri, inclusive, que ele escreveu Não Verás País Nenhum ouvindo a trilha sonora do filme Apocalipse Now, do Coppola, pela sua densidade.

Perguntei a ele se conhecia Leonard Cohen. Ele disse que não. Aí perguntei se poderia colocar uma música para tocar. “Sim, claro”. Lá fui eu: Suzanne. Aí comentei que ele era o compositor da música Hallelujah. Essa aí ele conhecia. Lembrei-me que a trilha de abertura de Assassinos por Natureza, do Oliver Stone, também era de Cohen. E tasquei Waiting for the Miracle.  Ele disse que gostou. Um pouco antes, havia ganhado o cd da filha dele, Rita Gullo, que ainda não ouvi. Na minha simplicidade, ofereci aquele cd de mp3 só com músicas do Leonard Cohen, para o caso de ele haver gostado. Prometi que entregava de noite, quando arranjasse uma capa para o cd. Depois de a palestra ser proferida, hora de me despedir. Um agradecimento pelos transportes, um abraço e a frase: “achou a capa pra colocar o cd? Eu gostei daquilo, quero levar”. Eu até já tinha me esquecido, achei que ele tinha sido apenas simpático. E ele se foi com meu cd do Leonard Cohen e eu fiquei com o um baita sorriso de satisfação no rosto.

Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
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