O conceito de experiência é tão rico que seria muito arriscado tentar uma definição, ainda que breve, nestas poucas linhas que nos são dadas escrever. Ao lado da riqueza do conceito, existe a sua historicidade e a polissemia dos sentidos dados: quando falamos “experiência”, dizemos experiência de quem? Onde? Com o quê? Para quê? De onde se parte quando se experiencia algo? Essas sãos questões que talvez nos ajudassem a compor um quadro de “experiências possíveis”. Fato é que por “experiência” compreendemos algo dado entre os seres humanos e, por mais que várias tendências contemporâneas afirmem que os animais, de certo modo, também “experienciam”, até hoje não assistimos a um relato da experiência animal, tornada linguagem pelo “animal em si” e, posteriormente, transcrita para o universo da cultura em um veículo que permita a historicidade do experienciado. Daqui tiramos uma primeira conclusão – muito embrionária e com vários pontos em aberto – importante para a nossa reflexão: toda experiência se dá em um ser humano, inserido no mundo da cultura, partilhante dos sonhos e objetivos de dada época (também podemos pensar em alguém que rompa com todos esse universo simbólico) e, por fim, toda experiência é tornada linguagem e pode, a princípio, ser compartilhada com qualquer ser humano dotado do mesmo universo linguístico.

Assim, com exceção da literatura mística que torna linguagem o incompreensível, a maioria dos seres humanos podem compartilhar o vivido. Pensemos em uma boa poesia, como a de Fernando Pessoa. Quando lemos, por exemplo, a poesia Andaime, alguns dos seus versos podem nos tocar e nos transportar para experiências nossas, estimuladas pela sensibilidade do poeta: “Gastei tudo que não tinha/ Sou mais velho do que sou/ A ilusão que me mantinha,/ Só no Palco era rainha:/ Despiu-se, e o reino acabou”. Muito comum é o desejo de compartilhar o vivido com alguém, ou transcrever tudo para o papel e esperar o efeito arrasador-vivificador dos anos: depois do vivido, é bom retornar para lembrarmos que um dia fomos aquilo que nos é tão estranho hoje.

Em um plano macro, a historicidade do ethos é garantida pelos hábitos e experiências tornadas linguagem. A memória, aqui, é o veículo primordial que guarda, organiza e constrói a Cultura. Imaginemos um ser humano que não tivesse memória: todo dia seria um recomeçar massacrante: um recomeço torturante. Talvez isso seja o inferno.

Ora, as minhas caminhadas por um Shopping Center da nossa grande Curitiba me fizeram levantar uma questão: que tipo de experiência nos é dado experienciar hoje? E a tautologia da pergunta é proposital “que experiência nos é dado experienciar”. Afinal, um grande número de pessoas experienciam a partir de um filtro pré-determinado, recortado, editado e composto de modo a normatizar comportamentos e liberdades. O vivido se dá a partir do recorte do consumo. O problema é que em uma sociedade que nos leva a consumir, o próprio conceito de experiência se torna algo mais a ser comprado em uma vitrine qualquer. Eis a grande sacada do marketing capitalista: não compramos um objeto qualquer, mas uma experiência possível. De tal modo, que não importa a qualidade real do produto, mas sim a produção simbólico-experiencial que está agregada ao fato de se possuir determinada experiência.

A falácia daquilo que nos é vendido está no fato de vivermos a partir da experiência de outrem. Investimos a nossa vida em sonhos que na verdade não são nossos, em projetos pré-construídos por uma “mão invisível”. Destarte, se investimos naquilo que não é nosso, onde está a experiência autêntica de se saber ser-no-mundo? Outra questão: se vivemos a partir da experiência-de-outrem, que tipo de história construiremos? Para esta, seremos sempre construtores da história-dos-outros; enquanto que para aquela, viveremos e seremos sempre o totalmente outro, pois não assumimos a difícil tarefa de negar aquilo que nos é dado, vendido e empurrado goela-abaixo. Uma dose mínima de criticidade faz bem para a vida e constrói liberdade.

Assim, os conceitos de experiência e memória mostram-se, para um ser humano de “vida-capital”, cada vez mais complexos e se perdem na fluidez da vida tornada consumo: experiência e memória, nem sempre, caminham juntas. Na maioria da vezes, a memória precisa de mais tempo, de um trabalho mais apurado, necessita daquele “ruminar”, daquele retorno sobre si mesma para, só depois, ser tornada linguagem. Em um sistema de compra das experiências, adquirimos experiências possíveis de modo tão veloz e irreflexo que não sobra tempo para a memória “guardar, organizar e construir sentidos”. Isso é o inferno in loco: viver em um mundo que se pode ser o que se quer, mas, ao mesmo tempo, se perder na pluralidade de possibilidades e se construir sempre como aquele que poderia ter sido, mas por não ter tido coragem de escolher, acabou sendo-aquele-que-não foi.

Mayco Delavy