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“Contos de fadas não fazem as crianças acreditarem que monstros existem. As crianças já sabem que eles existem. Contos de fadas fazem as crianças acreditarem que monstros podem ser mortos.”
Gilbert Keith Chesterton

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Eu gosto muito de epígrafes. Aliás, a palavra epígrafe bem que poderia ser o nome de uma fada, a musa inspiradora, aquela que, uma vez pousando sobre o papel, traz consigo a inspiração necessária para o início do primeiro parágrafo.

Não sei se Gilbert Keith Chesterton acreditava em epígrafes, mas certamente acreditava no poder dos contos de fadas. Nasceu em Londres, no ano de 1874, escreveu diversos ensaios, novelas e histórias curtas. Além disso, inspirou dois grandes autores, verdadeiros mestres do gênero fantasia (ou contos de fadas modernos): C.S. Lewis, autor de as Crônicas de Nárnia e J.R.R. Tolkien, de O Senhor dos Anéis.

Em seu livro Ortodoxia, há todo um capítulo dedicado ao tipo de ética e de filosofia que brotam dos contos de fadas e sobre como estas narrativas nos ensinam a olhar para a vida, sem excluir a razão – ou melhor, a razoabilidade – e ao mesmo tempo conservam a nossa capacidade imaginativa e criadora. Assim, a Lei de Grimm, que não é uma lei, mas sim a magia, funciona segundo a maneira filosófica destes contos, uma vez que tocam o “nervo do velho instinto de admiração”. E nada pode ser mais filosófico do que o fato de maravilhar-se! Portanto, o fascínio dos contos de fadas provém desse espanto, que contraria a lógica cartesiana e determinista.

E aí cabe a pergunta: de onde viria esta disposição para o “maravilhar-se”? Ora, nos contos de fadas, também chamados contos maravilhosos, nunca se pode dizer com plena certeza onde se inicia a fantasia e onde exatamente acaba a realidade.

Além disso a “ética do país das fadas” baseia-se na virtude, uma vez que o “teste de toda a felicidade é a gratidão”. Nestas narrativas tudo depende de um ‘se’, pois as personagens nunca questionam a razão dos fatos se apresentarem desta ou daquela maneira. A virtude e a felicidade estão sempre condicionadas a uma incompreensível condição, como no caso de Cinderela, que deve deixar o castelo antes do soar da meia-noite; de Branca de Neve, que deve resistir ao vermelho vivo da maçã envenenada; ou de Bela Adormecida, que não deve tocar no fuso que a fará dormir por cem anos.

Ainda para Chesterton, o vidro que está presente não apenas no sapatinho de Cinderela, como também em diversos outros contos, é um dos elementos mais simbólicos destas narrativas. Isso me faz lembrar do espelho da madrasta de Branca de Neve e do fragmento que atinge os olhos de Kay, personagem de Hans Christian Andersen em um de seus melhores contos, A Rainha da Neve. Além disso, segundo o Dicionário de Símbolos, o espelho reflete também a verdade, a sinceridade, o conteúdo do coração e da consciência. E aí, voltamos ao que  nos diz Chesterton: “Esse leve resplendor de vidro por toda a parte é a expressão do fato de que a felicidade é radiante, mas frágil.”

Talvez a “magia” e o “maravilhar-se”, que se escondem dentro da palavra “imaginação”, tão presente nos contos de fadas, estejam aí para nos informar sobre o fato, ou melhor, sobre o sentimento que inspira a Chesterton, “de que a vida não é somente um prazer, mas uma espécie de excêntrico privilégio”, um privilégio inexplicável.  E considero que seja desse modo que os contos de fadas nos confrontam eterna e diretamente com as exigências básicas do ser humano e suas possibilidades, pois não apenas se apresentam interligados, como fornecem explicações fundamentais sobre variados aspectos da vida, graciosamente preservadas no lento ruminar da cultura popular.

Luciane Hagemeyer
(com  uma gentil contribuição)
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Referências:
CHESTERTON, G.K.Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

CHEVALIER, J. & GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, figuras, formas, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.