Walter de Camargo, que foi adotado, depois devolvido e hoje é bolsista de um programa social da Fundação Criança

Pois ocorre que a priori traria uma crônica para esse espaço. Estava de certa forma adiantada a tal crônica, mas mudei de rumo. Geógrafos divagam como um rio na planície e também se perdem, às vezes tanto ou mais do que os não-geógrafos!  Mudei de rumo, mas mudei convicto. Explico: Num intervalo entre as aulas li o depoimento “Minha mãe me devolveu” de Walter Camargo, 24 anos, à jornalista Luiza Bandeira e publicado na página C4 do caderno “Cotidiano” do jornal Folha de São Paulo de 19 de Setembro de 2011.

Vou reproduzir alguns trechos de tal depoimento antes de emitir algumas considerações. Gostaria de não interferir em sua leitura inicial. De antemão, aconselho a conferir o artigo todo.

“ Minha mãe era caseira de um sítio em Itapecirica da Serra(SP). Antes de morrer, quando eu tinha dois anos, meu avô pediu para a dona do sítio nos adotar, porque minha mãe não tinha condições de cuidar dos filhos.

Tinha 22 irmãos, mas na época estávamos eu e mais três lá. Ela adotou os quatro.

A família tinha uma vida financeira boa. No começo, era tudo bom. Eles me davam presentes, me deram piano e videogame. Depois, começamos a ter problemas.

Ela (mãe adotiva) colocou meus irmãos para trabalhar no café dela quando eles tinham 13, 14 anos. Serviam mesas, mas os dois filhos biológicos dela ficavam na administração. Eu era o mais novo, só trabalhava às vezes.

(…) Eu também dava trabalho. Ficava na rua, mas ela não deixava. Queria sair com um amigo, e ela não aceitava. Eu voltava tarde, ela ficava brava e me batia. Ela e meu pai.

Ela apertava nossos dedos com alicate como castigo. Jogava cera de vela quente na gente, batia. Só nos quatro.

(…) Meus irmãos começaram a se revoltar e pediram para ir para um abrigo. Só eu fiquei.

(…) Eu tinha ciúmes do cachorro. Ele era mais bem tratado do que eu. Um dia, com raiva, joguei ele na piscina. Ele se afogou.

Minha mãe não brigou, mas uns dias depois ela me levou para a Fundação Criança e me deixou no abrigo.

Eu tinha 12 anos. Me senti um pouco rejeitado, mas eu tinha um pouco de culpa.

Não sinto raiva, porque ela me ajudou. Mas senti mágoa. Ela me abandonou.

(…) Eu sempre fugia para visitar minha mãe no fim de semana. Ela tomava um susto e ligava para o abrigo, para me buscarem. Mas a gente conversava e via TV. Eu queria ficar, mas não podia.

No abrigo, ninguém quis me adotar. Criei a ilusão de que, aos 18 anos, voltaria para casa, mas não foi assim.

(…) Morei na rua quase um ano. Depois, um amigo me ajudou e entrei num programa que auxilia jovens.

(…) Tinha parado, mas agora voltei a estudar. Quero terminar os estudos e, quem sabe, fazer faculdade de direito e pós em políticas públicas. Tenho vontade de ser como as pessoas que me ajudaram.

Se pudesse, voltava para a casa da minha mãe. Meus irmãos têm muita raiva, mas eu sinto carinho por ela.

Com a mãe verdadeira eu não tinha muito contato, e, depois de um tempo, não tive mais notícias dela. Quem eu considerava minha mãe mesmo era a adotiva.”

Puxa…

Está posto.

Tem muito a se dizer? Tem sim, mas é preciso um tempo para pensar em tudo isso…

… … …

???

… … …

Confesso que não me é fácil escrever algo que não esteja prenhe de parcial sentimento. Nesse sentido, ainda bem que o texto é escrito e não falado. A gente se deixa levar mais e se descontrolar facilmente ao calor das palavras ouvidas e (bem ou mal) ditas. Na descrição escrita das ideias, somos mais cuidadosos. Por outro lado, deixemos de hipocrisia! O assunto não é uma paulada? Queiramos ou não, está se tratando de gente. E não uma mercadoria… que se pega, acarinha, ameaça (perigosamente) a gostar e depois… se reembolsa, ou pior, se larga à própria sorte.

Antes de mais nada, nos primeiros contatos entre quem adota e quem é adotado, no “namoro” digamos assim, há alguém que está pretensamente ciente do ato da adoção e o outro que possivelmente nem faça ideia da revolução que está prestes a ocorrer na sua vida. Há casos, talvez seja o do depoimento acima, em que está mais para a trama de um golpe do que o de uma revolução. À criança que está sendo adotada, não se pergunta se ela está ou não querendo pertencer a essa família adotiva. Simplesmente vá e… boa sorte! Ótimo que na maioria dos casos, a sorte os agracia. Porém, não sejamos ingênuos: quantos outros passaram por situações (agressão, rejeição em cima de rejeição) semelhantes ou piores? Quantos nesse exato momento, não o estão?

Parece fácil falar quando se está distante do fato, não dói na própria pele. Concordo. Mas, creio que posso opinar com alguma, embora ainda incipiente, experiência no assunto. Não julgarei a família adotiva de Walter. Nada é tão simples assim, nem magicamente solucionável. Há momentos que qualquer pai ou mãe tem lampejos de vontade de desistir de sua sagrada atribuição. Contudo, é opção ser mãe ou pai adotivo? É para o que der ou vier? Então, meu caro, como a um filho de seu próprio legado genético, trate de cultivar essa relação. Are esse solo, regue-o com suor e afeto e tenha certeza, não se iluda: haverá tempestades com muito barulho e enxurradas. E então, mais do que nunca, será muito importante que as raízes estejam bem agarradinhas ao solo.

Francisco Carlos Rehme, o Chicho