Há alguns dias estava folheando um livro sobre a política brasileira, quando, não sem surpresa, me deparei com a seguinte frase de um conhecido político: “A ética, em minha vida, não é apenas uma palavra, mas um estado permanente de espírito”. Ora, o problema e, em consequência, a minha surpresa, não esteve na frase, com significado profundo de conduta moral e de postura de homem público, mas na autoria da frase: ninguém menos que José Sarney, nosso ex-presidente, senador, governador do Maranhão… E, o que provavelmente fundamenta todos os cargos públicos, dono de “algumas parcelas” do Estado de Gonçalves Dias.

Quando pensamos na palavra e nos fundamentos daquilo que enunciamos aos outros ou ao público, fundamentos que garantem que determinada frase possa ser crida como verdadeira pelos nossos ouvintes, expressões como a acima mencionada soam-nos um pouco desconexas e nos fazem levantar duas questões: primeira, que tipo de lugar ocupa a função-verdade em uma democracia? Segunda, há, pois, lugar para a verdade nos mecanismos que regem a democracia moderna? O que vemos no cenário político, a princípio, nos leva a crer que a verdade, ao invés de fundamentar, quando é posta em prática, abala os sistemas de governo e a governamentabilidade democrática. Como exemplo, poderíamos citar a tão falada “faxina dos ministérios” que ocorreu nas últimas semanas no governo Dilma. Como podemos conceber que a verdade, fundamento dos sistemas de pensamento e da relação que mantemos com o outro, deva ser posta de lado na condução dos interesses públicos?

A questão da verdade como abalo da governamentabilidade acena para a falta de verdade presente naqueles que conduzem a vida pública do país e na má compreensão do regime democrático: democracia, necessariamente, deve ser a busca pelo bem público e de todos os cidadãos. Seu fundamento básico é a justiça e o bem comum. Frases como as do nosso ex-presidente, lançadas ao vento, nos colocam em posições diversas: alguns as escutam e, na correria da vida, creem ser verdadeiras, ou, o que é muito comum, levados pela ingenuidade e pela falta de consciência histórica, a propagam, e, em consequência, acabam por defender os “araútos da ética”. Para outros, os “ditos mais críticos”, a banalidade da frase enoja de tal modo que já não é possível conviver com o seu autor. Estes assumem a postura de uma “ignorância consciente”, isto é, afirmam aos quatro ventos que a política é um “espaço de ladrões”, que todos os políticos não prestam e, por omissão, tornam-se cúmplices de frases semelhantes como a do ilustre maranhense.

Defendemos uma terceira conduta, conduta daquele que vê na realidade um pouco mais do que aquilo que nos é apresentado frente aos olhos. Esse leitor perspicaz da realidade é capaz de perceber que o problema da verdade não está no regime democrático, mas na má compreensão de alguns governantes, e também governados, do significado da democracia: não é suficiente conhecer que no regime democrático o governo é de todos, do povo… Isso ainda está no plano teórico. É preciso compreender-se como parte do demos, em seu sentido amplo, pois, não basta ser cidadão de urna eletrônica. Na verdade, esse é um dos grandes problemas da democracia representativa contemporânea: o fato de termos perdido o sentido do coletivo e da nossa pertença à comunidade local, juntamente com o ato de eleição de um sujeito que nos representará por quatro anos, cria, sem sombra de dúvidas, uma apatia para os negócios públicos. Destarte, o problema da verdade e da credibilidade nos discursos públicos e, em consequência, do critério que nos permitirá saber se determinada frase proferida será, na sequência, cumprida, é de todos os cidadãos que, como tantas outras dimensões da nossa vida hoje, terceirizam a sua cidadania em nome do “conforto” e da privatividade da vida.  Nos dias de hoje, em que estamos mais próximos da Copa do Mundo de 2014 que das Eleições de 2012, cremos ser interessante levantar o debate político no Brasil.

Mayco Delavy