A Gruta de Lascaux é o mais famoso entre os sítios arqueológicos que têm nas inscrições em rochas o seu principal tesouro. E não é para menos. Ancestrais de Renoir, de Monet, de Delacroix, deitaram primorosamente as pontas de sílex encarnadas em pó de minerais e desenharam cenas que transitam confortavelmente entre a arte e a história. Os artistas ou sujeitos que deste modo se eternizaram no imaginário da humanidade, esses perambularam por aquelas terras atualmente francesas há mais de dez mil anos. Para a rocha calcária esculpida pela água, foi ontem, mas para nós, humanos, isso é tempo! E a sensibilidade, o esmero e o preciosismo nos grafismos já se revelavam nesse despertar da civilização. Sem dúvida, um diferencial entre outras tantas espécies.

Façamos um intervalo. Provoquemos um hiato no tempo: coisa de milênios.

Outro grupo de humanos, entre os quais me encontro, se prepara para entrar na Gruta dos Jesuítas, sessenta e cinco quilômetros ao norte de Curitiba. E entrar numa caverna é uma mistura de sentimentos: expectativa pela aventura, pelos mistérios e segredos a serem descobertos em meio à escuridão, que é absoluta, quando a tênue luz das lanternas é apagada. Há inconscientemente também um compromisso com a história, ao se retornar para o lar – o interior dos abrigos que protegeram nossos antepassados.

Assim, quatro jovens estudantes da Oficina de Cinema e Vídeo e mais três educadores, que acumulam mais experiência etária, um pouco mais é verdade, avançam gruta adentro. Cada um dos sete, munidos de suas próprias expectativas e apreensões. De minha parte, estava entusiasmado com a ideia de apresentar aos demais, alguns recônditos secretos da caverna. Há vários salões na Gruta dos Jesuítas que não se situam no circuito de visitação turística. Uns por questão de segurança, dados os riscos que apresentam, e outros por apresentarem delicadas e imaculadas formações minerais, cuja conservação depende, indiscutivelmente, do controle do número de visitantes. E é justamente a alguns desses santuários subterrâneos que a minha expectativa estava ancorada. Não que não conhecesse esses condutos e salões. Exatamente por conhecê-los.

Há três anos, por conta da pesquisa de dissertação do mestrado, explorei alguns destes mágicos cantinhos da gruta. Galeria dos Ossos, Toca do Bicho, Salão das Cascatas, Salão da Capela, Sala dos Gnomos. Os nomes já sugerem surpresas. Mas, é bem mais do que a imaginação é capaz de conceber. Num deles, são os ossos de roedores largados no piso calcário por corujas que se abrigam na caverna, após suas refeições. Noutro, é a quantidade de alvíssimas formações que lembram fontes, em cujo interior a água circulante lapida os seixos, deixando-os arredondados, enquanto o gotejar intermitente das estalactites trata de branquear essas pedras. O resultado não poderia inspirar outra denominação para esse tipo de espeleotema: pérolas! Há vários ninhos de pérolas, ou tecnicamente, oólitos  na Gruta dos Jesuítas. Em certos salões, a cristalização da calcita, mineral mais encontrado nas rochas calcárias, parece zombar das leis da gravidade. Nesse anárquico mundo mineral, as helictites e as flores de cristais se moldam ora para o lado, como espinhos, ora em forma de ganchos, crescendo para o alto. Por vezes, tudo isso num imenso emaranhado.

Tudo isso é muito belo para não ser compartilhado com outros olhos, ou melhor, com outros olhares. Pois fomos exatamente com o intuito de capturar imagens, de registrar alguns mágicos instantes, de produzir um documentário a respeito desta ainda pouco conhecida obra da natureza, que violamos a escuridão da Gruta dos Jesuítas nesse início de julho. O resultado dessa primeira versão do documentário – que haverá de ser completado – pode ser visto no fim deste post. Mas antes de conferir o trabalho dos jovens cineastas, vale conhecer alguns dados referentes a essa que é a quinta mais extensa cavidade natural do estado do Paraná:

Conjunto Jesuítas / Fada
Código da caverna no catálogo da SBE* = PR 0009.
Município: Cerro Azul.
Localidade: Parque Estadual de Campinhos.
Desenvolvimento: 1565 metros
Desnível: 58 metros.
* SBE= Sociedade Brasileira de EspeleologiaFonte –  Sessegolo, G.C., Silva da Rocha, L.F., de Lima, F.F. Conhecendo Cavernas – Região Metropolitana de Curitiba Curitiba: GEEP Açungui, 2006.

Abraço!

Francisco Carlos Rehme, o Chicho