Desafio
A vida bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada
Helena Kolody

Há alguns anos assisti a um documentário sobre Helena Kolody, Helena de Curitiba (2005), e me recordo que o que mais me impactou naquele retrato da vida da poeta foi imaginar o grande desafio que ela enfrentou ao viver quase um século inteiro neste mundo e viver especialmente o século XX com todas as suas descobertas científicas e tecnológicas.

Tenho pensando um pouco sobre isso nos últimos tempos, pois o sentimento de transitoriedade e de incerteza é uma constante para nós, habitantes da modernidade líquida (Bauman 2001), que nascemos ouvindo música no vinil e na fita K7 e hoje corremos atrás de aprender a lidar com os tablets e os MPs. Porém, o que tem me intrigado não é o desafio dos botões e sim o das possibilidades.

Sou usuária do computador há pouco mais de uma década e hoje tenho a impressão de que uso e sempre usei a internet na mesma perspectiva da TV e do rádio, ou seja, sempre usei como receptora e confesso que por muito tempo achei que o alarde feito em torno desta “nova tecnologia” (registre-se que sua criação data de 1969 e sua popularização da década de 90 do século passado) era o mesmo feito por ocasião do advento da TV ou do rádio e que essa era apenas mais uma tecnologia.

Mas alguns fatos dos últimos tempos têm me levado a pensar no caráter democratizante que a rede pode ter. Estou falando, por exemplo, do grande sucesso da Banda Mais Bonita Da Cidade e da Professora Amanda Gurgel, assuntos da última semana. A primeira tem hoje mais de 4 milhões de acessos e a segunda quase 2 milhões, ou seja, são fenômenos na internet. O que me interessa, no entanto, não é julgar o conteúdo de um ou de outro vídeo e sim perceber que através das redes sociais há, nestes casos e em tantos outros,  uma mudança de foco no que diz respeito à produção de conteúdo.

O vídeo da banda curitibana, por exemplo, foi produzido pelos meninos, sem nenhuma grande estrutura ou montante de recurso; o discurso da professora, que é do Rio Grande do Norte, foi feito na Assembleia Legislativa e colocado na rede. Não há uma explicação única e verdadeira sobre os motivos que levaram os vídeos à tamanha audiência, mas é fato que o sucesso repentino os levou, posteriormente, às grandes redes de televisão. Neste caso, é a galera através da internet fazendo a pauta do Faustão e do Fantástico.

Pode parecer (e pode ser) ingenuidade minha, mas penso que esta é uma concretização da tão sonhada democratização dos meios de comunicação. Digo isso, não só pelo fato de as redes de TV cederem espaço àquilo que “bomba” na internet, mas pelo fato de que a própria visualização na internet por si só já é uma repercussão gigantesca, é comunicação de massa.

O interessante é que os dois exemplos que usei, bem como tantos outros, foram produzidos por pessoas comuns, como nós. Há quem diga que isso é muito perigoso, pois é uma produção descontrolada, feita por amadores. É verdade, é um território com muito lixo e alguns muito acessados, mas tenho a tendência de preferir isso ao monopólio da comunicação de massa no qual meia dúzia de pessoas, representando meia dúzia de interesses, decide o que mais de 190 milhões de pessoas vão ver, ouvir, pensar, comprar e fazer.

Quero crer que estamos diante de um terreno fértil para um projeto educativo que se propõe a formar cidadãos e não indivíduos.

“O cidadão é uma pessoa que tende a buscar seu próprio
bem estar através do bem-estar da cidade – enquanto o
indivíduo tende a ser morto, cético ou prudente em relação à
“causa comum”, ao “bem comum”, à “boa sociedade” ou à
“sociedade justa”. (BAUMAN, 2001, p. 64)
Juliana Heleno