Como seres humanos, somos seres de relações: relação com o outro, que nos revela; relação com a cultura, que nos enraíza no mundo; relação com a nossa liberdade, que nos permite ser de modo responsável no mundo; relação com o transcendente e com o sentido existencial profundo de nossas vidas, que nos constitui. Neste emaranhado de relações nos reconhecemos e aprendemos a reconhecer o mundo como espaço de crescimento e aprendizado.

A internet, como uma das dimensões mais presentes da nossa cultura, contribui de modo significativo na maneira como nós nos vemos no mundo. Afinal, como poderíamos imaginar que um dia poderíamos conversar “ao vivo” com alguém que está a milhares de quilômetros de distância? O virtual, por incrível que pareça, é bem mais “real” do que poderíamos imaginar. Essa constatação é fundamental para pensarmos as relações presentes no mundo da Rede: relações de trabalho, lazer, pesquisas, comunicação, interatividade… Assim, por detrás de cada máquina conectada, existe uma cabeça pensante que dá diretividade aos comandos que todos nós, internautas de carteirinha, podemos ler, interpretar, comentar, odiar… A autoria da palavra escrita e do discurso pronunciado não perde a sua identidade por estar na Rede; ao contrário, ela ganha dimensões gigantescas, pois é acessível não só àqueles que fazem parte da minha “comunidade virtual”, mas a todos os seres humanos ligados na Rede.

Para fins ilustrativos, pensemos em uma intriga entre dois colegas de escola: os dois amigos se ofendem verbalmente, há um público presente, os professores têm que interferir e mediar o “armísticio”… Ao final, se tudo der certo, os dois colegas podem até voltar a ser amigos… Agora pensemos a mesma intriga, mas com um agravante: um dos colegas decide “postar” esse conflito em uma página de relacionamentos: palavras ofensivas, fotos que exponham a pessoa, comentários maldosos… Ao final da postagem, as palavras que antes estavam restritas a um grupo específico, ganham universalidade e podem ser não apenas lidas, mas interpretadas com diferentes olhares.

Quais serão as consequências desse ato? Que tipo de pena deverá receber aquele que postou as palavras ofensivas? Como aquele que sofreu a ofensa irá enfrentar o fato de ter a sua vida exposta ao público? São questões que nos fazem pensar em uma ética no uso da tecnologia e dos meios de comunicação virtual. Não somos avatares desprovidos de identidade e, por conseguinte, inimputáveis pelos nossos atos. A virtualidade da palavra na rede não deixa de, por isso, possuir substancialidade e autoria, por mais que seja uma autoria fictícia. Assim, o problema da autoria não está na internet, mas no uso que o autor faz dela: na internet, a principio, se pode dizer o que se quer. Destarte, a postura responsável é fundamental para o internauta: antes de escrever, pense no significado da palavra e no modo como as pessoas poderão interpretar o texto. Atitudes como essas evitam problemas e contribuem para fazer da internet um espaço formativo e humano, onde a ética da responsabilidade e do cuidado regem o modo como nos relacionamos com o mundo e com os outros.

Mayco Delavy

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