“Para um adulto uma mesa é uma mesa, sólida, inerte e resistente. Uma mesa e nada mais. Para uma criança ocorre de maneira diferente: onde começa o real? Onde termina?”

Jacqueline Held, p.39

Alguns dias atrás um grupo de alunos da Oficina do Clube do Livro assistiu ao filme “The Pagemaster: O Mestre da Fantasia”. É a história de um garoto que não gosta de ler e é também muito medroso. Ao entrar em uma biblioteca, vive uma trajetória fantástica ao lado de três livros de ficção que representam os gêneros: aventura, fantasia e terror (a tradução não gosta dessa palavra, prefere o eufemismo “suspense”).

Meu objetivo era ensinar às crianças que, assim como o protagonista, elas poderiam conhecer melhor os livros identificando-os pelos gêneros. Mas o que elas me ensinaram foi outra lição. Observando as reações diante do filme, fui percebendo o crescente interesse em encontrar livros que revelassem esses mesmos ingredientes: histórias sobre piratas e fantasmas, encantamentos e objetos mágicos.

Sei que posso causar polêmica e apaixonadas opiniões divergentes, mas arrisco dizer que se fôssemos fazer uma média dos livros atualmente escritos por autores brasileiros, a ficção realista predominaria de modo disparado. Por quê? Não sei explicar. Como estou sempre pesquisando novidades, venho percebendo a crescente tendência pela opção de temas que tratam das mazelas sociais, da preservação do ambiente, de questões que repercutem na pisquê infantil, tal como a separação dos pais ou o convívio com pais do mesmo sexo, os problemas com os colegas da escola, e até mesmo as doenças de parentes na terceira idade.

Não quero dizer com isso que a ficção realista não apresente predicados ou que não trate de assuntos importantes. Pelo contrário, vêm abordando temas atuais, tratados com sensibilidade e propícios para o debate. Inclusive, existem muitos autores contemporâneos produzindo ficção realista da melhor qualidade para o público infantil, dos quais eu não abriria mão de ter em minha biblioteca, como José Roberto Torero (As Primeiras Histórias do Lelê, O Diário do Lelê), Georgina Martins (No Olho da Rua: Historinhas Quase Tristes, O Menino que Brincava de Ser) ou Ruth Rocha (os livros da série da turma do Catapimba são geniais).

A escritora Heloísa Prieto diz que “seja qual for o tipo de aventura que a vida nos apresenta, ela sempre traz um risco, uma possibilidade de perda ou ganho” (pág.59). De fato, essa aventura pode ser cheia de elementos fantásticos ou pode ser real. No entanto, o que me preocupa é que os temas abordados em muitos livros de ficção realista não partem de uma escolha feita pela criança. Muitos deles dependem da mediação do adulto, porque o que um menino vai mesmo procurar sozinho na estante é o livro que conta sobre a mansão feita de sorvete e sobre um gigante que era malvado e encontrou um herói destemido em seu caminho. Ele procura a história do duende que se escondia na casa da avó e sobre as criaturas minúsculas que vinham de Lilliput. Ele quer saber o que pode fazer com os objetos mágicos que a narrativa apresenta, quer fingir que “era” um pirata, que fez uma viagem intergaláctica e que falou com dez alienígenas. Ele sonha em explorar mundos perdidos e ter o poder de se tornar invisível. Ele quer ser um super-herói e quer sentir o medo de dar de cara com um fantasma de verdade (no entanto, aposto um doce se você encontrar um livro de literatura infantil de “terror”, pois são praticamente inexistentes para o público de seis a oito anos).

Como diria Jacqueline Held, a ficção tem que se assimilar a um brinquedo: “os realistas referem tudo à experiência dos dias, esquecendo-se das experiências das noites” (pág.17). Como não pode haver só dia nem pode haver só noite, é preciso compreender que a leitura do real passa pelo imaginário. E isso é crucial se quisermos fazer desse país um país de leitores, como diria o saudoso Monteiro Lobato.

Luciane Hagemeyer

REFERÊNCIAS:

HELD, J. O imaginário no poder: as crianças e a literatura fantástica.  São Paulo: Summus, 1980.

PRIETO, H. Quer ouvir uma história? Lendas e mitos no mundo da criança. São Paulo: Angra, 1999.