Foi no ano da neve em Curitiba. Pois, destinara-se para mim o papel de escolher o uniforme do time de futebol de salão da quinta série B para a Olimpíada do Colégio. Por que será? – fico pensando – logo eu, tão tímido e desprovido de qualquer sintoma de liderança.

Não faço ideia porque os outros – que eram mais uns sete – nem impuseram restrições. Só sei que fui com a minha mãe – pois é, só passei a ir sozinho de ônibus para o centro da cidade na sétima série – na Fedato (Fedatoooo – bradava uma propaganda na rádio e na tevê), lá perto do Cine Condor e da rua XV e escolhi com satisfação e sem pestanejar o que iria compor o fardamento do time. Conhecia de memória cada prateleira dessa loja de esportes, principalmente aquela que expunha centenas de caixinhas de futebol de botão – da Bolagol, tenho-as guardadas até hoje. Foi lá que garimpava com prazer atrás de preciosidades do futebol de mesa, e as encontrava: o verde Alecrim de Natal, o azulado Galícia e colorado Leônico, ambos da Bahia, e talvez o mais raro entre eles, o Umuarama, esmeraldino do noroeste do Paraná.

A camisa era listrada em preto e amarelo, tal qual a camiseta do Peñarol de Montevidéu. O calção era preto, da marca Elite, apenas duas faixas amarelas estreitas, duas e não três, pois que o da Adidas encarecia muito o conjunto. As meias eram igualmente negras.

Era chamativo, mais elegante do que escandaloso, o nosso uniforme. E o futebol do time? Ficou em segundo plano, pois lembro-me muito bem do comentário de um aluno do terceiro ano do segundo grau, seis anos mais velho: o uniforme daquela piazada da quinta foi o segundo mais bonito da Olimpíada. Claro: o primeiro lugar tinha que ficar com eles, independente de qualquer estética. Afinal, eram os mais velhos e eram da turma do último ano da escola. De modo que penso que sua consideração tenha sido um baita elogio.

Mas, a despeito do elegante e zebrado (ou seria tigrado) uniforme, o time era bom. Tinha um bom ataque: o Carlinhos, o Orestes (ambos atleticanos, único defeito, no mais eram muito gente boa, além de talentosos) e o Gérson, legítimo coxa-branca que um dia no quintal da casa dos meus pais, no Bom Retiro, havia feito um golaço de bicicleta. Eu nunca tinha visto algo igual executado por alguém de minha idade. Admirei a obra de arte a ponto de treinar meses a fio para repetir a façanha. Tudo bem: era sobre a grama. Mas, as correntes de minhas bicicletas sempre se soltavam…

Engraçado: não lembro da defesa, nem do goleiro. Quanto a mim, o garoto do uniforme, era um dos dois reservas do time. O grupo, contudo, muito embora a idade própria de ser fominha, foi bem legal: me deixaram entrar em todos os jogos – que foram três, já que havia ainda a 5ª.A, a 5ª.C e a 5ª.D –, num deles chovia e fazia frio. Fomos campeões e ganhamos a cobiçada medalha olímpica. Para mim, porém, isso foi menos importante do que a confiança atribuída e a responsabilidade de escolher o uniforme do time.

Pssit, bem baixinho, agora que já se passaram trinta e seis anos: não havia sido o famoso esquadrão uruguaio do Peñarol que me inspirara a escolher aquele conjunto. Na verdade, foi o Jandaia Esporte Clube, um time ao qual, com uns sete anos, havia assistido no então Belfort Duarte e que me encantara, não pela qualidade, posto que perdera, graças a Deus e talvez ao Krüger e ao Leocádio, do Coritiba, mas pela beleza da combinação do preto com o amarelo em listras verticais. Ao saudoso Jandaia do início dos anos setenta, minhas estimadas lembranças e felicitações.

Chicho, março de 2011.