Eles já não ouvem mais Luiz Gonzaga, Marinês, Sivuca… Conhecem forró só de nome. O forró que toca nas rádios todo santo seco dia (ou molhado dia, como tem sido estes primeiros do inverno paraibano), com letras apimentadas, acordes repetitivos e danças estraçalhadas, mais parece funk carioca do que bailão-xaxado, coitado! (“forró de plástico”, como já disse Chico César, que aqui faz a vez de artista-secretário de cultura.) Mas conhecem muito bem as melodias da banda que “reinicia” o melhor mais do mesmo, com suas roupas coloridas e visuais excentricamente desalinhados.

Já não sabem do que é feito um xerém. Acham estranho o gosto do coentro no feijão verde. Aliás, “mãe, por que a senhora não faz aquele feijão da propaganda? – qual, meu filho?” Ora, mas que mãe desavisada! Ele está falando daquela variedade que não é típica daqui, que não foi plantada nem colhida aqui, e que demora dias na carga de um caminhão para atravessar o país até chegar na sua mesa e saciar o apetite publicitário de seu filho. “Mãe, por que a senhora está fazendo carne de bode? eca! prefiro carne de boi…!”, ainda que esteja vestindo uma linda camiseta tamanho M, onde se vê escrito o ideário programático da geração no-way: Save the Planet. Quem? “Pai, por que essa tal de tapioca não tem pronta no supermercado?” “Mãe, passa lá no ‘mall’ e compra uma caixinha de ‘nuggets’… é easy-peasy de fazer!” (sinceramente, não sei como a carne de sol ainda sobrevive por aqui.)

Já não falam mais “muído”, “muléstia”, “cabra da peste”, “ôxi”, “vôte”. São palavras que não aparecem nas legendas das séries a que assistem e que baixam pela rede. Mas falam no mínimo três idiomas: o inglês de letra de música, o espanhol de cursinho e o internetês; este, sim, por sua vez, subdividido em diversos dialetos virtuais: emessenês, feicebuquês, orcutês, baduês, tuitês etc. Não se lembram mais do significado de “aporrinhar”; mas quem não sabe o que significa “I’m ghost”? Eu, na minha infinita incapacidade de compreender de forma rápida e precisa neologismos em português, quanto mais no idioma alheio, achei algo estranho alguém jurar ser um fantasma…

Olhando para os jovens e, sobretudo, adolescentes que começo a descobrir dia após dia aqui neste agreste paraibano, consigo compreender melhor por onde passa a (desculpem, ainda não achei uma tradução para este termo) “globish culture”: ela passa por tudo. Desde a roupa que vestimos até a comida que ingerimos, ou a canção que escutamos, não importa, nada mais é nosso. Tudo se perdeu no todo de todo mundo; tristemente, contudo, o todo de todo mundo é talvez um nada. E eu que pensei que encontraria aqui uma juventude arraigada nos seus costumes e tradições, bem diferente daquela que eu conhecera em outros rincões do país… Não há nada mais que nos defina. Somos, enfim, a grande massa falida, filha da revolução industrial?

Sei que a cultura é algo dinâmico, que não pode ser simplesmente enquadrado nos limites do que já foi. Caso contrário, tornar-se-ia uma simples peça de museu: bom para os olhos, mas sem nenhum significado para a vida. Porém, fica difícil não ver nisso tudo um avassalador processo de aculturação, no pior sentido da expressão cunhada por Herskovitz. Quem seremos nós, num mundo sem culturas locais? Meu protesto antropologicamente incorreto fica aqui registrado. Não, contudo, sem esperanças de renovação.

Carlos Renato Moiteiro (Prof. Natão)