Em um certo tempo não muito distante, mas também não muito próximo, grupos de trabalhadores ousaram lutar por diminuição de carga horária, exigindo 8 horas diárias. Os tempos eram outros e o palco desse confronto – EUA, 1886 – atualmente nos causa estranheza. Na sequência de mobilizações anteriores, convocou-se uma greve nacional para exigir a redução da jornada de trabalho. O sucesso da organização e a força dos trabalhadores manifestaram-se na saída de cerca de 340 mil operários às ruas. Já ao final daquele ano, cerca de 1 milhão de trabalhadores já tinham conquistado o direto de trabalhar “apenas” 8 horas em cada dia, em semanas de 6 dias.

Em um olhar retrospectivo e panorâmico, pode restar uma impressão de causa e efeito – união, luta, conquista. O que ficou para registro também foram os conflitos, a repressão policial, a morte de um policial e de 38 operários. Seguiu-se a prisão, julgamento e condenação à morte de cinco operários executados em Chicago no ano de 1887. Três anos depois, em 1º. de maio de 1890, o Congresso dos EUA regulamentou a jornada de oito horas. Em 1891, a Segunda Internacional dos Trabalhadores, associação de representantes dos trabalhadores sindicalizados, elege o dia 1º. de maio como data referência para mobilizações dos trabalhadores em todo o mundo.

Marcou-se o dia, criou-se um feriado, criou-se uma memória para lutar contra o esquecimento. Quando não reavivamos a memória sobre os fatos, corremos o risco de só lastimar que o feriado tenha caído no domingo. Supermercados fechados, cidade mais vazia… mas viagem que é bom, nada.

Os tempos são outros, alguns podem dizer. Porém, continuam os problemas para quem trabalha. A humilhação só aumenta para os que não conseguem trabalho e se veem como um peso morto/vivo para os que compartilham seus ganhos com as despesas coletivas, não importa em que estrato social se posicionam. De forma mais geral, continua a mesma lógica que paga menos ao trabalho, desproporcionalmente aos lucros que se multiplicam, agora numa escala planetária. Continua também a defesa de menor jornada de trabalho para se garantir maior número de postos de trabalho e de políticas públicas que comprometam governo e empresários na geração de empregos.

Então, manifesto aqui meu respeito profundo por todos que lutaram e continuam lutando por mais direitos no mundo do trabalho. Corro o risco de parecer panfletária, porque ficou fácil nesse nosso tempo enquadrar críticas, denúncias e reivindicações dessa forma, desqualificando sempre seus autores. Sempre é pedido um minuto de silêncio para lembrar os mortos e manifestar nosso pesar. O que menos precisamos, nesses tempos duros para milhões de pessoas e aparentemente prósperos para alguns, é de silêncio.

Geralda Colen