Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.

Carlos Drummond de Andrade

Pitanga é uma fruta vermelha, saborosa, doce, incomparável. Amiguinha é o nome de uma boneca enorme, muito maior do que eu, que só falta falar. Alguns corredores são tão compridos que o certo seria atravessá-los por etapas.

Sinto em frustrá-los, mas isso não é um início de uma poesia concreta. Nem tenho competência para poetar. São memórias da minha infância. Você deve ter uma porção delas também, espero eu, porque elas são deliciosas ou eram. Digo isso porque eu comecei com uma mania de pôr à prova as minhas memórias. É isso mesmo, conferir se os cheiros, sabores, imagens, etc, que eu havia armazenado eram reais ou não.  Resultado? Perdi mais de uma dúzia de memórias, fiquei com as memórias desfalcadas. Descobri que pitanga é uma fruta caroçuda e sem graça; que a amiguinha é uma boneca que não existe mais,  que está sendo vendida na internet como brinquedo antigo, que tinha 90 centímetros de altura e nenhum recurso audiovisual e que o tal corredor fica em um apartamento na Alferes Poli e não tem mais que uns 4 metros.

Preocupada com a perda irreparável do meu repertório de memórias, decidi que não ia mais, nunca mais testar memória alguma. Resolvi deixá-las,  intactas, feito a ideia toda azul do Rei da narrativa da Marina Colasanti:

“(…) O Rei deitou a ideia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou a porta. A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela. (…)[1]

Porém, na dinâmica de ser mãe e de partilhar experiências, contei, um dia, aos meus filhos sobre uma bomba de chocolate, que eu comia quando criança numa confeitaria que ficava do outro lado da rua da minha casa. Era um doce sem igual, perfeito em sabor, em cheiro, em textura. Como custava muito caro, a mãe me deixava comprar uma por mês, na época do pagamento do pai. Era o dia mais feliz do mês, com certeza! Ocorre que ao terminar o relato gastronômico me deparei com três olhares desconfiados, diferentemente desconfiados. Eu havia partilhado com eles anteriormente as frustrações sobre a pitanga, a boneca, o corredor e algumas outras e agora eles duvidavam das minhas memórias:

- Ah, mãe, era tudo isso mesmo, ou vai ser que nem a pitanga?

- Se eu fosse você nunca mais comia bomba nenhuma, para não correr o risco de perder mais uma lembrança.

Mas, incentivada pela curiosidade  e pela gulodice da caçula resolvi arriscar. Sempre que tinha oportunidade e via uma bomba assemelhada àquela comprava cinco e seguimos experimentando, sem compromisso, pois bombas são muitas e a tal confeitaria fica fora de mão. De modo que sempre achava todas muito aquém das bombas da minha infância, mas não eram as mesmas, o que garantia a existência da minha memória.

Dia desses, no entanto, voltando de uma consulta médica, acompanhada das minhas duas meninas, vi a confeitaria e verbalizei o fato. Não tinha dúvida, era ali, no mesmo lugar, com a mesma aparência, trinta anos depois. Depois de ponderar com as meninas que era melhor deixar para outra hora, etc e tal, estacionei, descemos e entramos. Elas em uma confeitaria e eu em um túnel do tempo. Juro que torci para não ter bomba, mas tinha. A cena estava cinematográfica, três bombas em um prato e dois pares de olhos atentos, apreensivos. Como não tinha mais volta mordi, para em seguida fazer um leve aceno negativo com a cabeça.

Observei, porém, que o que para mim era uma brincadeira, para minha filha caçula foi uma grande decepção, que merecia algumas palavras.

Expliquei para ela que sabia que não seria o mesmo sabor, não  só porque os ingredientes talvez sejam outros, nem só porque o tipo de produção também pode ser outro, mas porque aquelas bombas tinham o sabor do trabalho do meu pai, do carinho e do cuidado da minha mãe, do meu empenho em economizar, logo tinham o sabor de conquista. Tinham o sabor de ter, em um universo de não ter, sabor de coisa rara. Expliquei que foi a partir deste universo, que eu aprendi que é justo que todas as pessoas tenham acesso aos bens e serviços necessários para uma vida digna  e que não só é justo como possível e urgente que a gente construa uma nova forma de viver e de se relacionar com os outros e com o mundo. Expliquei que, porém,  para que todos tenham bonecas, bombas, apartamento, saúde, educação, cultura, etc, não será possível que alguns tenham 50 bonecas, 30 bombas (uma para cada dia do mês), vários apartamentos… . Do alto dos seus quase 10 anos ela indagou:

- A gente ainda tá falando das bombas? – E deu a última mordida no seu doce, já ficando em pé para bisbilhotar o ambiente.

Juliana Heleno


[1] Uma idéia toda azul – Autor: COLASANTI, MARINAGLOBAL EDITORA