- Queimada clandestina da Floresta Amazônica -

Gostaria de hoje compartilhar uma música de Vital Farias, paraibano violeiro e cantador, grande poeta que é. Em sua canção Saga da Amazônia, ele consegue nos tocar profundamente para a questão da conservação de nossas florestas.

Há algumas semanas tive a oportunidade de passar uns dias na reserva do Salto Morato, localizada no município de Guaraqueçaba. Lá, vivenciei dias de intenso contato com a floresta, naquele ambiente imponente, intenso de cheiros e tons de verde, e sons misteriosos ao primeiro contato. Aos poucos, as muitas cores além do verde começam a se fazer perceptíveis e os cheiros passam a ser perfumes conhecidos, que cada vez que reaparecem nos dão o sentimento de saudades. Os sons misteriosos, aos poucos, são trilha sonora, e seus autores passam a aparecer. Nada mais sublime que conhecer a floresta no seu íntimo, quando percebemos que estamos enxergando tudo o que há de mais mimético e tímido.

Experiências como esta dizem muito mais que qualquer exercício de racionalização sobre o valor de se preservar a natureza. Ninguém cuida daquilo que não conhece e a que não se sente pertencente.

A arte tem a capacidade de nos tocar pelo que o outro sentiu e transmitiu pela sua representação. E estranhamente nos apegamos por aquilo que nem pertencemos de fato, ou que nem precisamos viver para nos afetuarmos. A música de Vital Farias é assim: nos faz viver um espaço para onde nunca fomos, mas estimamos que aquele universo por ele contado nunca deixe de existir.

Sugiro que a Saga da Amazônia seja lida e ouvida. Melhor ainda se sentida e apreendida.

SAGA DA AMAZÔNIA

(Vital Farias)

Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta
mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
no fundo d’água as Iaras, caboclo lendas e mágoas
e os rios puxando as águas

Papagaios, periquitos, cuidavam de suas cores
os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores
sorria o jurupari, uirapuru, seu porvir
era: fauna, flora, frutos e flores

Toda mata tem caipora para a mata vigiar
veio caipora de fora para a mata definhar
e trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita madeira
e trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar
prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar:
se a floresta meu amigo, tivesse pé prá andar
eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá

O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar
e o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar?
depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar
igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar

Mas o dragão continua a floresta devorar
e quem habita essa mata, prá onde vai se mudar???
corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá
tartaruga: pé ligeiro, corre-corre tribo dos Kamaiura

No lugar que havia mata, hoje há perseguição
grileiro mata posseiro só prá lhe roubar seu chão
castanheiro, seringueiro já viraram até peão
afora os que já morreram como ave-de-arribação
Zé de Nata tá de prova, naquele lugar tem cova
gente enterrada no chão:

Pois mataram índio que matou grileiro que matou posseiro
disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro
roubou seu lugar

Foi então que um violeiro chegando na região
ficou tão penalizado que escreveu essa canção
e talvez, desesperado com tanta devastação
pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção
com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
dentro do seu coração

Aqui termina essa história para gente de valor
prá gente que tem memória, muita crença, muito amor
prá defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta
era uma vez uma floresta na Linha do Equador…

Um abraço,

Juliano Pilotto.