Pôster da 9ª Copa do Mundo de futebol, realizada no México, em 1970.

Petras abriu o marcador para os tchecoslovacos e correu para a linha lateral do campo. Ajoelhou-se e fez o sinal da cruz. Não compeendi bem, nem lembro ao certo o que meu pai comentou. Entendi, no entanto, que Petras havia feito um gesto heróico. Não era o gol, mas o sinal da cruz. A ideia que papai deixou no ar é a de que o gesto do jogador fora mais político do que religioso. Naquela época (a da Era do Gelo Bélica… ou Guerra Fria), além do Meridiano de Greenwich que ninguém enxergava muito bem, havia uma outra coisa meio mística, invisível e muito amedrontadora que separava o oeste do leste, uma tal Cortina de Ferro. Aqui, contavam que os do lado de lá da cortina comiam criancinhas no desejejum. E nem ficavam vermelhos, pois já o eram. Os de lá diziam que fazer o sinal da cruz era consequência de uma pandemia: o ópio do povo.

Seleção campeã de 1970

Eu tinha então seis anos de idade. O futebol e a geografia começavam a ser o meu ópio – não me livrei dessa dependência até hoje. Não sei bem ao certo, mas algo me diz lá naquele cantinho cerimonioso e pouco visitado da memória, que os jogos com a Romênia e o Uruguai os assisti à noite (e creio que era a primeira copa transmitida ao vivo para o Brasil). Em relação ao jogo contra a Romênia, o clima em casa – nesse caso, refiro-me a meu pai, meu tio, minha tia e meus dois primos mais velhos que moravam ao lado – era de absoluta tranquilidade, pura confiança. Parece que o fantasma de 66 havia sido superado: estávamos classificados para as quartas-de-finais e, além do mais, havíamos vencido nada mais do que os últimos campeões do mundo, os ingleses numa peleja duríssima, mas que só não terminou em dois a zero porque o Gordon Banks fez a mais bela defesa de todos as copas. E o jogo que era para ser tranquilo, e que parecia fácil pelo seu início em que botamos os romenos na roda, complicou-se até certo ponto.

Contra o Uruguai, o temor estava mais evidente. Sinto isso hoje não de forma material, seja pela expressão de preocupação desenhada pelos traços das rugas na já avançada testa de meu pai ou por alguma expressão que tenha sido dita em alto e bom tom, mas por uma mera sensação atmosférica. Ou melhor, um sentimento sutilmente agudo na atmosfera da alma. Gostaria, mas não sei explicar de modo mais claro.

Enfim, contra o Uruguai, moleza de fato não foi, mas o jogo se ajeitou direitinho para o Brasil, e com direito a lances espetaculares, como aquele “quase gol de Pelé”, ao enganar Mazurkievicz, o goleiro uruguaio e, junto com ele,  milhões de espectadores, ao desenhar no gramado de Guadalajara um laço, uma verdadeira armadilha no centro da qual reteve perplexo o goleiro. Foi um quase gol, pois a trave direita assistiu a bola passar a poucos centímetros de distância, mas ficou eternizado como uma obra-prima do futebol, portanto mais do que um golaço. A Gioconda, quem sabe, com o sorriso enigmático forjado pela teimosa majestade, a bola.

Em algum momento das poucas horas que separaram a vitória do Brasil contra os vizinhos do sul da outra semifinal, envolvendo Alemanha e Itália, estávamos numa festa, provavelmente de aniversário posto que havia muitos parentes, na casa de Tante Hedi, no Água Verde. Recordo-me com clareza que lá pelas tantas a conversa dos mais velhos girava em torno da expectativa por uma grande final entre suas duas pátrias: a que eles deixaram quando bem crianças e a que os acolheu: Alemanha versus Brasil. Aliás, até então, ambas as seleções jamais haviam se enfrentado numa Copa do Mundo, embora fossem justamente as que mais vezes participaram desse grande campeonato de futebol.

Mas não foi essa a final. Na decisão, contra a Itália, circula ainda na minha rede viária que une os ouvidos, o cérebro e o coração, o susto da Tante Uschi: “Féééélix!!!” O grito saiu da alma ferida, enquanto, simultaneamente, os braços se erguiam e as mãos espalmadas se juntavam às faces. O goleiro brasileiro abandonou sua trave, atravessou toda a extensão da área grande, e, fora dela, ficou perdido, desolado no meio do caminho, enquanto dois atacantes italianos o enganavam e um deles jogava a bola para o fundo da rede, empatando então o jogo: um a um.

Pelé comemorando o título da Copa do Mundo de 70

Enquanto o gramado do Estádio Azteca era invadido, instantes antes do árbitro apitar e pôr fim na goleada do tricampeonato, os céus de Curitiba num fim de tarde hibernal ornavam-se de balões e do brilho dos fogos de artifício.

Outro capítulo das memórias me sussurra de como Curitiba e o México se fundiam, de como as imagens de Jairzinho, Rivelino, Tostão, Gerson e Pelé se (con)fundiam com Médici e todos os outros generais do planalto. Eram os álbuns de figurinhas. Adoráveis diversões e, ao mesmo tempo, poderosas armas da propaganda e educação ideológica e sentimental das crianças.

Álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 1970

Na escola, mesmo os mais tímidos como eu – aliás doentemente acanhado que era – , aguardávamos ansiosos pelo recreio para participarmos da “aleluia”. Era quando os colegas mais velhos, os que estudavam no andar de cima, soltavam da sacada de seu andar dezenas de figurinhas repetidas que dispunham. Por breves instantes, o pequeno pedaço de céu se coloria com os cromos que nem chegavam a tocar o chão do pátio. Logo morriam nas mãos dos mais fortes, dos mais afoitos e dos mais ágeis. Aos tímidos, bem, a estes, restava-nos as figurinhas fáceis, as rejeitadas. Invariavelmente lá estariam estampados os rostos dos ingleses Bob Moore e Bob Charlton, dos alemães Overath e Beckenbauer, dos uruguaios Pedro Rocha, Pablo Forlan e Matosas, a bandeira da Suécia que de tão fácil se popularizou rapidamente no meio escolar. Tostão, Pelé e Paulo César, o que mais tarde receberia o complemento de “Caju”, também estavam entre as figurinhas mais fáceis. A destreza no trato com a bola realmente não era requisito para tornar a figurinha com a sua estampa uma raridade. Por vezes me vem o agradável cheiro dos cromos. A delícia desse cheiro se mistura com a prazerosa sensação de se rasgar um pacotinho e em frações de segundos sanar a curiosidade com a explosão de deslumbre diante da última figurinha que restava para completar o álbum: era um romeno, não lembro o (sobre)nome, mas era algo que terminava com “escu”.

Apenas como registro: por aqueles tempos, finalmente conclui o inesquecível e muito educativo “História Natural” – aquele álbum grande e que tinha o rosto de um tigre na capa de cor vermelha. A figurinha que faltava, não sei por quê, mas me recordo: era a  do Furão. Furão, aliás, um mamífero, conforme aprendi com o álbum de figurinhas…

Francisco Rehme, o Chicho.