A homenagem da Midiaeducação ao Dia Internacional da Mulher…

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Não é que era do lado de cá da divisa, da margem direita do rio Negro e, enfim, da cidade do mesmo nome, que nasceu há 102 anos Dona Aracy! Filha de um português e de uma alemã, igualzinha à Rio Negro, a cidade, que como a vizinha catarinense Mafra, era assim: meio teuto, meio lusa, nascida à beira do Caminho das Tropas, pouso de tropeiros de sangue caboclo e refúgio dos pioneiros imigrantes da Germânia. Tudo isso quando mal se havia inventado o século XIX.

Por que lembrar de Dona Aracy Carvalho, nascida rionegrense, em berço de cores do Brasil, de Portugal, da Alemanha e do mundo e falecida nesse início de março de 2011?

Em primeiro lugar, eu me curvaria a alguém que viveu – de fato viveu – cento e dois anos de vida. Não é para qualquer uma! Até porque dá para se viver uma centena de anos e simplesmente passar por aí, cruzar o éter dos tempos. Pouca gente perceberia. Cem anos de vida é pura fortaleza. Feito aquela da Ilha do Mel, quantas balas de canhão não menosprezaras? Chacoalharas a poeira e estavas pronta para outra. Não zombaste porque não era do teu feitio, mas de certo riste da volatilidade dos estados, das fronteiras, das ideologias, do regozijo dos vitoriosos nas guerras, da ganância pelo poder dos homens e mulheres de tantas gerações as quais viste passar.

Em segundo lugar, porém longe de ser menos importante, por teres resistido incólume a um preconceito gigantesco de seu tempo: casara-se no início do século XX, gerou seu único filho, Eduardo, e logo depois se separou. Naqueles idos, divórcio não existia, Deus me livre, no Brasil. Portanto, não era para qualquer uma!

Culta, dominava a língua portuguesa tanto quanto a alemã, além de outras que não titubeava em travar uma conversa, e conseguiu uma vaga no consulado brasileiro em Hamburgo, no norte da Alemanha. Era o começo dos anos trinta.

Na Alemanha, crescia o regime antissemita. Discursos de um certo Adolf lembravam as toadas do flautista de Hamelin. E o povo, como os ratos, seguiam os acordes… nem todos, porém. Responsável por carimbar os vistos, arriscando sua vida, salvaste a de muitos outros, de origem judaica, de seguir para os campos concentrações da Alemanha nazista. Essa terceira razão, por si só, bastava. Valia por todas as outras juntas e mais.

Nessa época, antes do Brasil declarar guerra à Alemanha, um certo João, de sobrenome Guimarães Rosa, fora nomeado cônsul adjunto em Hamburgo. De cara, esse senhor sensível, enamorado das letras e dos ideais, concordou com a atitude subversiva da funcionária Aracy. Concordaram em muito na vida distante de sua pátria. Casaram-se.

Dona Aracy, agora Aracy Carvalho de Guimarães Rosa, de volta ao Brasil depois de tantos anos e vivida uma boda de prata com o seu João, enterrou o glorioso escritor em 1967. Nessa mesma época, ajudou a acolher entre tantos que a ditadura militar brasileira – outro espasmo de arrogância latino-americana pós-segunda guerra – perseguiu e maltratou, nada mais nada menos que o compositor Geraldo Vandré. Jurado pelo governo enfardado de ser calado, por bem ou por mal, por ter criado e cantado uma canção que ressoava em milhares de vozes durante um festival da canção que meramente afirmava, entre outros sinceros versos:

Há soldados armados, amados ou não

quase todos perdidos de armas na mão.

Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição

de morrer pela pátria e viver sem razão.

 

Por isso Vandré fora torturado. Mas fora também acolhido por Dona Aracy a despeito do perigo que isso representava. Entre os militares da encardida Alemanha da suástica e os das terras tupiniquins que por ora ditavam tanto as normas como o humor do país, que diferença fazia? Quem enfrentou os senhores de Auschwitz e Treblinka, iria se acovardar diante dos que se achavam os zelosos guardiões do lema “Brasil: ame-o ou deixe-o”?  Ora, tanto o amava que não o deixou. Nem deixou tantos outros partirem. Essa seria mais uma razão de se homenagear essa mulher. Que me deem licença, Fernando Brandt e Milton Nascimento, mas não pude deixar de relacionar: Maria Maria! Maria Solidária! Salve Aracy Carvalho de Guimarães Rosa. Mereceste como ninguém mais uma das mais belas obras da genialidade humana, a maior das escritas pelo marido. Agora segues absolutamente em paz pelos céus em companhia de seu João pelos Grandes Sertões e suas floridas Veredas.

Francisco Carlos Rehme, o Chicho.