Na semana passada estava procurando algo para assistir na TV, quando fui surpreendida com a re-exibição do filme Garota Rosa Shocking (Pretty in Pink, 1986), um filme que não via há muito tempo e que marcou a minha adolescência.  A história é até bem simplesinha e cheia de estereótipos: há o cara riquinho e metido (James Spader), o “feinho” sensível e engraçado (Jon Cryer de Two and a Half Men, bem novinho), a garota meiga, graciosa, inteligente e no entanto pobre (Molly Ringwald, do Clube dos Cinco e Gatinhas e Gatões), a loira popular e burra etc. Como o filme é direcionado a um público bem específico, o jovem, a história me fez pensar em uma palavra que nos anos 80 não existia, o bullying. É que a protagonista, Andie, estuda em um colégio frequentado por alunos, em sua grande maioria, ricos, mimados e fúteis. Ela é discriminada e humilhada pelo amigo do rapaz por quem está apaixonada, Blane, que é até um carinha legal e honesto, só que não sabe escolher direito as amizades.

Mas se em Garota Rosa Shocking o bullying apenas se insinua, em outros filmes ele vai muito além da discriminação e da humilhação. O bully (valentão) utiliza-se de sua força ou poder para intimidar alguém ou persuadi-lo a fazer aquilo que ele deseja. O bullying não envolve apenas a violência física, mas também psicológica.  Isto me levou a perceber que o bullying está presente em outras produções da época, também voltadas ao público adolescente. Aliás, pode-se até fazer um estudo sobre isto observando como o tema aparece em filmes ainda mais antigos (nos filmes em que a “cultura jovem” se sobressai, por exemplo).

Mas voltando aos anos 80: a trilogia Karatê Kid (1984) que foi um grande sucesso de bilheteria (não confundir com o remake de Jaden Smith), tem como protagonista o garoto Daniel Larusso, interpretado por Ralph Macchio, que também é vítima de bulliyng em um tempo em que nem se falava sobre isto. Atormentado pela gangue do ex-namorado da namorada, ele começa a se defender quando pode contar com a ajuda do senhor Myagi no aprendizado dos golpes de karatê que o ajudarão a se impor e a dar uma merecida lição nos valentões.

E o que dizer do megasucesso De Volta para o Futuro? (Back to the Future, 1985) Tudo bem que ele é bem mais do que um filme teen, é uma história muito bem amarrada com sequências dramáticas e ao mesmo tempo divertidas, que trouxe efeitos inovadores para a época. No entanto, não nos esqueçamos que tanto George McFly quanto seu filho Marty McFly são atormentados nos três filmes pelo implacável Biff Tannen, um valentão estereotipado, mas um valentão.

De modo geral os filmes protagonizados por adolescentes que se veem em conflito para se adaptar ao contexto em que vivem demonstram que, a despeito dos valores e das atitudes dos jovens se modificarem ao longo das décadas, o bullying atormenta invariavelmente a vida de muita gente. No entanto, para estes mesmos jovens que praticam o bullying ou que sofrem com ele, a construção de relacionamentos saudáveis nos espaços de convivência nem sempre é fácil ou natural. Entretanto, será mais fácil lidarem com estes conflitos, se meninos e meninas puderem contar com a empatia de um amigo ou de um adulto que os façam perceber seu valor e consequentemente, a serem aceitos em suas qualidades e defeitos neste período tão complexo da vida. Pelo menos é esta a solução encontrada nos filmes de ficção.

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Luciane Hagemeyer