Mananciais da Serra… essas palavras, assim juntas, me fazem salivar. Palavras que têm sabor intenso, doce, suspiros dos velhos armazéns da infância – que então não pareciam ser enjoados. O paladar de outrora…

E cá entre nós, “mananciais” tem de ser assim mesmo, no plural. Até por uma questão de inerência: eles se revelam em múltiplas fontes. Destas águas nascentes os rios se fazem, se encorpam, transgridem as barrancas. Manancial, no singular, não. Definitivamente, a melodia da palavra é outra. É banal, trivial…

Na Serra do Emboque – lá onde desperta o Marumbi, pequeno, mas altivo, confiante, quase solene – um portão e uma cerca de arame resguardam o que até meados dos anos de 1970 foi um parque para piquenique, banho em tanque (um piscinão de concreto, sem azulejo, não era azul, meio esverdeado que era de alga e limo) de água serrana, corrente e, portanto, gelada de traspassar a alma.

Há uns dois ou três anos, envolvido numa pesquisa de campo, recebi a chave do dito portão. Desconfiava, é verdade, mas longe de poder imaginar que ao atravessar a cancela entraria num capítulo tão precioso de minha infância. Algumas casas em ruínas, o banheiro público também e mais adiante… os balanços enferrujados,  as gangorras, digo, das gangorras só o que era ferro: o suporte, a base em que se equilibravam as tábuas e as crianças. Ambas já se foram. Coisas do tempo, esse impassível senhor. Aliás, descobri: o tempo é britânico! Nascido da torre do Big Ben, domado em Greenwich, inevitavelmente tornou-se um lorde fleumático. Vá lá: ora ou outra Sir Tempo se insinua sob as brumas, aí até brinca, prega uma peça, joga com a gente, que, ao contrário, somos meros mortais.

Mais alguns passos e um descampado. Adiante, muita árvore, mata nativa, úmida e densa. Mas aqui, o olhar escaneador redesenhava um estacionamento  algo meio matrix. Gordinis, kombis, corcéis, muitos fuscas, aerowillys – esses eram dos ricos de famílias grandes, como também os gáláxies e opalas. Quietos e empoeirados. A estrada – continua – de chão, como as décadas esvoaçadas, levantam e assentam a poeira.

Passei o que foi um dia o estacionamento e segui por uma trilha em que o capim que cheira no calor crescia, acompanhado de samambaias, beijinhos e hortênsias. O caminho culminava no tal tanque. Aí foi o clímax da viagem ao passado, que parecia estar trancado na memória e cuja chave até então se perdera.

Repassei os sorrisos marotos dos meninos que pulavam em cambalhotas na água, os gritos agudos das meninas. Elas sempre sentiam a água mais fria. As horas que ali passamos, em piqueniques da família, pareciam intermináveis. Não que fossem monótonas. Bem ao contrário. Mas aquele tal senhor bretão ao qual antes nos referimos, tenho certeza de que ele era mais calmo, bem menos apressado. Ousaria dizer que um sorriso seu era inimaginável, não fosse o fato de nele distinguir um leve contorcimento no lábio superior, a maçâ do rosto tão rápido se encheu quanto logo voltou ao normal. Pronto: lá estava ele de novo impecável em seu fardamento de guarda real. Garboso, mas pouco confortável.

Revi(vi) os Mananciais da Serra, tantos anos depois. Mergulhei de roupa e tudo nas águas que continuam geladas do tanque. Rebatizado, lavado por fora e por dentro, calcei o tênis, juntei a mochila e segui.

Francisco Carlos Rehme (o Chicho).