“Relativity” de Escher.

A obra do pintor Escher impressiona pela capacidade de brincar com a percepção de quem a contempla. O que parece ser num primeiro momento, na verdade, não é. A imagem, a cada nova observação, revela-se algo maior, desconstruindo o olhar e desencadeando uma série de novos significados, como num ciclo sem fim. Bom, mas não estou aqui para devanear sobre a obra de Escher, mas para elucidar sobre como o cinema também pode ser um exercício para nos ajudar a enxergar as coisas por uma nova perspectiva.

Assistir a um filme pode ser sinônimo de muita diversão, como também um momento de reflexão e estudo. Falo isso porque compreender uma obra cinematográfica não se resume apenas em assisti-la e conseguir identificar os personagens principais e os conflitos da trama. É mais do que isso. Você pode utilizar um filme como mais uma ferramenta para lhe auxiliar a enxergar diferentes pontos de vista sobre um determinado assunto. Por exemplo, assista aos diferentes filmes que foram lançados sobre os atentados terroristas do inesquecível 11 de setembro de 2001, e repare como cada diretor contou os fatos. Enquanto alguns focaram no descaso do presidente norte-americano George W. Bush, outros preferiram mostrar o contraste das reações entre os americanos e os povos do oriente-médio. Uma dica para traçar este paralelo: Fahrenheit 9/11 (2004), do  Michael Moore, e 11 de Setembro (2002), um filme formado por 11 pequenos curta-metragens que contam histórias relacionadas com o dia dos atentatos, sendo que cada uma delas é dirigida por um diretor diferente.

Os filmes Fahrenheit 9/11 e 11 de Setembro.

Outro exemplo que ajuda a perceber como o cinema é capaz de representar uma realidade por meio de diferentes olhares é quando lembramos da quantidade de filmes produzidos pelas nações durante as guerras mundias, principalmente na Segunda Guerra. A Alemenha de Hitler, com o talentoso Joseph Goebbels – ministro da Propaganda do Reich -, produziu diversos filmes para o povo alemão com o objetivo de fortalecer e levar a mensagem dos ideias fascistas; os Estados Unidos, por outro lado, por entratrem mais tarde na guerra, concentraram sua produção em filmes com ideias pacifistas; a URSS com filmes que axaltavam a figura de Stalin e os ideais do Estado soviético. Ou seja, um mesmo conflito, um mesmo assunto – a Segunda Guerra Mundial – e diferentes produções cinematográficas que retratam a realidade a partir dos interesses de quem as produz.

O filme “O flecha Quex” (1935) produzido por Goebbels na Alemanha de Hitler e a produção norte-americana “Civilization”, de Thomas H. Ince.

Portanto, antes de assistir a um filme, preocupe-se em saber quem é o diretor, suas convicções, em qual país está sendo produzido, pois a história que você está vendo na telona, ou na televisão de casa, na verdade, é sempre um olhar, uma maneira de contar uma história. É o mesmo caso quando pessoas diferentes nos contam a mesma história. A ideia principal é bem provável que permaneça a mesma, mas será nos detalhes, na sutileza da entonação da voz, no tempo dedicado para contar cada parte da trama que as mudanças serão percebidas. E é a partir do contato com esses diferentes olhares que nossa visão de mundo é ampliada e enriquecida.

Bons filmes!

Vinícius Soares Pinto