A perfeição da esfera, mais a plasticidade da superfície e a diafaneidade: por tudo isso e mais algumas que jamais descobriremos, toda criança, antes mesmo de começar a caminhar, se hipnotiza por delongados segundos pelas bolhas de sabão. Cintilam os olhinhos, acompanhando o flutuar divagante da bolha e, de súbito, ela espoca… e some. Invariavelmente, a pequena criança atravessará momentos ainda mais prolongados de decepção nessa “introdução à aprendizagem da temporalidade das coisas e dos seres”.  Frustração, para ser mais preciso, que logo se dissipa assim que seus olhos, que não deixam escapar nenhum movimento, avistam outra bolha de sabão dançando conforme a melodia do vento.

Cá entre nós, o que é mais translúcido, imaculado e cristalino: a bolha de sabão ou a imaginação da criança residindo dentro de cada bolha de sabão? Difícil opção?

Difícil…talvez porque já faz tanto tempo que deixamos de nos encantar pelas coisas simples que descrevem a história do cotidiano, como forjar bolinhas de sabão com um canudinho… Ora, mas que processos mágicos e absolutamente desprovidos de quaisquer malícia e maldade há nessas sinapses infantis que dão sentido ao mundo – vasto mundo – que rodeia a criança.

A criança cresce e as bolhas de sabão ficam para trás. Esquecidas, meio escondidas, elas flutuam solitárias no breu de um cantinho do cérebro. Lavoisier diria que as bolhas não desapareceram contudo, quem sabe se transformaram…

O pequeno ser também se transforma.  Ele adolesce, tem espasmos de rebeldia alimentados por sonhos que, se fossem desenhados, talvez fossem redondos, límpidos e com um insinuante certo brilho dourado. Esses ímpetos são inflamados pela ilusão de poder resolver os grandes conflitos do mundo. Parece simples: basta bradar a palavra certa e destemida num discurso acalorado.

Se você tiver mais de trinta, recorde os tempos em que éramos pura  irreverência juvenil.  Tempos da eterna utopia à qual jurávamos fidelidade.  Lembra-se de quando você pedia asilo político ao mato para se exilar por alguns dias da loucura urbana. À noite, deitado na areia, deixava os olhos desleixadamente passear pelo céu estrelado – os mesmos olhos que outrora eram puros e que achavam as bolhas de sabão a invenção mais fantástica da natureza. Espiando um céu despido de fuligem e sem a cegueira que o excesso de luz da cidade causa,  não demorava muito você capturava uma estrela cadente riscando de azul claro o veludo escuro do céu. São pouquíssimos segundos, às vezes apenas frações de segundo, no entanto o suficiente para engendrar sentimentos tão diversos quanto a fascinante surpresa pela desavisada visita do corpo celeste e o desalento dele se volatizar, imerso na noite. Aí, é como um revival dos momentos em que tudo no mundo se concentrava no interior das bolhas de sabão.

Mas não é assim em tantas situações da vida por que passamos. E ela própria, a vida não o é assim? Um quê de provisoriedade, de fragilidade, eterna insegurança e, a despeito de tudo isso, uma permanente retomada. O mundo e nossa realidade plena de efemeridades – motivos de deleite ou de profundas  dores – e de algumas constâncias, ou talvez e ainda mais provável, a vida é em síntese uma profusão de surpresas efêmeras. Nesse caso, se, apesar do corpo mais crescido, pesado e menos tenro, ainda conseguirmos embarcar nas bolhas de sabão, que saibamos desfrutar da viagem aparentemente sem direção e que, enfim, confiemos na sabedoria dos ventos.

Francisco Carlos Rehme