“Quem estaria certo e quem estaria errado? Agora eu sou adulto e continuo sem saber. Mas em algum momento, tarde da noite, quase ao adormecer, as ideias e desentendimentos se dissipam e restam apenas as pessoas. E as pessoas naquele tempo não eram diferentes do que sempre foram e sempre serão. As moças se apaixonam. Os homens e as mulheres sofrem sozinhos pelas escolhas que fizeram. E os meninos, confusos, cheios de medo, de amor e de coragem crescem silenciosamente enquanto dormem.”


Houve uma série de televisão americana do final dos anos 80. Exibida entre 1993 e 1995 na TV Cultura e na TV Bandeirantes. Chamava-se The Wonder Years. “Anos Incríveis” em português.

Narrada pela voz de Kevin Arnold, a série ambientada no final dos anos 60 e início dos 70 tocava em temas como a guerra do Vietnã, a conquista espacial, o movimento hippie e feminista e a música dos Beatles. Moldadas pelos conflitos sociais da época surgiam então as dúvidas e as dificuldades vividas pelo protagonista de 12 anos, Kevin, cujo crescimento e (nem sempre) amadurecimento ocorreram ao longo de 115 episódios divididos em seis temporadas.

Lidando com linguagens verbais e não-verbais, os episódios constantemente apresentam discordâncias entre o que é narrado vinte anos depois pelo próprio Kevin e aquilo que se apresenta nas cenas, sendo estes os elementos responsáveis pelo efeito da ironia dramática e da comicidade da série. Desse modo, a presença deste Kevin narrador funciona como um personagem a mais integrando o seriado. Em alguns momentos de diálogo e de ação ele se retira, para que depois possa contrapô-los, em uma espécie de diálogo entre a linearidade do texto e a transversalidade da imagem.

É misturando drama e comédia que a série apresenta enredos nem sempre totalmente explícitos, personagens um pouco mais complexos e muitas vezes finais não resolvidos. Traz também cenas de noticiários de época e faz referência a outras séries de TV, o que lhe proporciona maior realismo.

Kevin Arnold não é muito estudioso e também não muito popular. Seu melhor amigo é Paul Pfeiffer, um garoto judeu, inteligente e de boa índole.  Sua primeira namoradinha, Winnie Cooper, teve o irmão morto na guerra do Vietnã. Seu irmão, Wayne, é o estereótipo do completo idiota e atormenta Kevin sempre que tem uma oportunidade. A irmã, Karen, faz a linha hippie e luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres.  A mãe de Kevin, a princípio, é uma típica dona de casa que aos poucos volta a estudar e a trabalhar fora. O pai, Jack, é um homem de poucas palavras e um tanto distante.

Nesta trajetória, a série mostra como Kevin se constituiu como sujeito na relação com o outro: a mãe, o pai, os parentes, os amigos e os grupos sociais de que fez parte. Mas ele também se constitui no presente como sujeito por meio da palavra com o signo, formando sua consciência a partir do diálogo com o outro e consigo mesmo, construindo uma subjetividade guiada pela memória organizada dos fatos de que se recorda.

Apesar de demonstrar o típico american way of life, o seriado preocupa-se com temas universais e talvez aí esteja a razão da rápida identificação entre os espectadores e as experiências de Kevin Arnold, se bem que firmemente amparado nos ideais americanos de liberdade, igualdade e direito à felicidade.

No entanto, guardadas as devidas proporções, em termos de sitcoms, acredito que “Anos Incríveis” seja uma das melhores séries já realizadas. Os episódios duram em torno de 25 minutos e podem ser um bom (e divertido) ponto de partida para a discussão das várias questões que são abordadas a cada episódio: literatura, música, questões políticas, valores, conflitos de geração, relações familiares e sociais, consumo, liberdade e individualidade.

No entanto, a série não foi lançada aqui no Brasil em DVD por um problema de liberação dos direitos autorais da trilha sonora. Normalmente se consegue a temporada completa apenas ripada da televisão. Mas, fica aí a dica.

Fonte: The Wonder Years, a identidade americana na mídia televisiva, dissertação de Mírlei A. Malvezzi Valenzi. São Paulo: USP, 2003.

Abraços,

Luciane Hagemeyer