O que é o belo? Bem, eu me comovo diariamente com vários tipos de arte, principalmente a música e a literatura. A cada dia conheço coisas novas e mesmo as coisas que eu conhecia, na 55ª vez que escuto uma mesma música, ela se revela totalmente diferente, e eu a encaro com um olhar diferente. Seria uma espécie de dialética da percepção?

Em busca de uma resposta para o primeiro questionamento, reli uns trechos do livro “O que é estética”, de Marc Jimenez, que o Vinícius me emprestou. Uma definição dada por Félibien é, para mim, tão bela quanto apreciar essa obra de Caravaggio, que, aliás, trata de um momento tão belo quanto.

“A beleza nasce da razão, mas a razão não pode ser inteiramente criadora da beleza”. Jimenez nos explica que essa “outra coisa” é a graça. “Ora, a graça não depende da razão, mas da alma. Ela não obedece a regras racionais, mas somente ao gênio do artista: ‘A beleza nasce das proporções e da simetria que se encontra entre as partes corporais e materiais. A graça é engendrada pela uniformidade dos movimentos interiores causados pelos afetos e pelos sentimentos da alma”. Belo, não?

A graça seria uma espécie de movimento da alma. Essa alma eu encaro como algo ligado à consciência, essência, percepção e não em sua concepção religiosa. Jimenez ressalta uma aliança entre a beleza  e  a graça. O resultado seria “um ‘esplendor totalmente divino’, um ‘não sei o quê’”. Esse “não sei o quê” é emblemático. É uma falta de palavras para expressar, para dar um sentido. Contudo, para Fébilien, ele é o “‘nó secreto que reúne estas duas partes do corpo e do espírito’. É ele que provoca em nós a admiração sem que nem mesmo possamos explicar nem por que nem como”. Maravilhoso, não é?

Agora, quero compartilhar alguns desses momentos de extrema graça:

Dostoievski, em Notas do Subsolo

“Asseguro-vos, senhores, que o excesso de consciência é doença, uma doença verdadeira e completa”

Elis Regina e Adoniran Barbosa, cantando Tiro ao Álvaro:

Leonard Cohen, cantando Anthem:

Soem os sinos que ainda podem soar
Esqueça sua oferta perfeita
Em tudo há uma fenda
E é por onde a luz entra

Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack in everything
That’s how the light gets in.

Leonard Cohen, Joan D’arc:

As chamas, agora, perseguiam Joana D’arc
Enquanto ela vinha cavalgando pela noite
Sem luar para manter brilhante sua armadura
Nenhum homem para alcança-la nesta noite enevoada

Ela disse, “Estou cansada da guerra,
Eu quero o tipo de trabalho que eu tinha antes
Um vestido de noiva ou algo branco
Para vestir sobre meu grande apetite”

Bem, estou feliz por te ouvir falar desse jeito
Você sabe que eu tenho te visto cavalgar todos os dias
E algo em mim deseja vencer
Como uma fria e solitária heroína

“E quem é você”, ela falou firme
Para aquele entre a fumaça
“Porque, eu sou fogo”, ele respondeu
“Eu adoro sua solidão, e amo seu orgulho”.

“Então, fogo, faça seu corpo ficar gelado,
Estou te dando o meu para você segurar”
Dizendo isso ela aceitou
Ser sua única, sua única noiva

E lá dentro de seu coração flamejante
Ele tomou o pó de Joana D’arc
E acima dos convidados do casamento
Ele pendurou as cinzas do seu vestido de noiva

Foi no fundo de seu coração flamejante
Que ele pegou o pó de Joana D’arc
E então ela entendeu perfeitamente
Se ele era o fogo, ó, então ela deveria ser a madeira

Eu a vi estremecer, eu a vi chorar
Eu via a glória em seu olho
Eu mesmo almejo amor e luz
Mas isso deveria vir de forma tão cruel, e tão luminosa?

Se você chegou até aqui, divida com a gente os seus momentos de extrema graça. Daí, inserimos no post.

Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
Leia outros artigos dele aqui.