Olá, nessa semana de eleições, o tema também aparece com tudo em nosso blog.

Na sexta-feira, 22 de outubro, alunos do grêmio estudantil do Colégio Medianeira organizaram um debate sobre as eleições presidenciais, que se deu entre convidados defensores das duas candidaturas (Dilma Rousseff e José Serra) e alunos que também divergem em seus posicionamentos políticos. Apesar das discordâncias (óbvias e naturais), tudo se deu num clima de elegância e civismo, características nem sempre presentes nestas eleições.

Abaixo, publicamos duas cartas: uma de Sônia Stabile, debatedora e defensora da candidatura Serra; e outra de Mauro M. Braga, debatedor e defensor da candidatura Dilma. Eles avaliaram o debate organizado pelos estudantes do Medianeira.

Confira:

A RIQUEZA DE DEBATER IDEIAS E CONFRONTAR OPINIÕES

Por Sônia Stabile

Para quem, como eu, viveu dos 11 aos 31 anos sob a mordaça do regime militar, é sempre uma maravilha ver a democracia funcionando, ver a riqueza que é debater ideias e confrontar opiniões. Sendo assim, foi um privilégio presenciar o momento único que foi o debate DilmaXSerra promovido pelos alunos do Medianeira na tarde de 22 de outubro. Lá estavam pessoas tão jovens, imagino que muito ocupadas em se preparar para as provas de fim de ano, para o teste do ENEM ou para o vestibular que se aproxima, mas dispostas a empregar o precioso tempo de uma tarde de sexta-feira debatendo questões tão árduas, tão complexas.

Eu tinha ido apenas assistir e, para minha surpresa, passei de plateia a debatedora. Aceitei o convite dos organizadores feito ali, em cima da hora, feliz pela oportunidade de abrir um pequeno espaço em meio à pregação ideológica a que nossos filhos são submetidos no ambiente escolar. Mas receio não ter estado à altura da coragem intelectual e da independência demonstrada pelos cinco meninos que, solitariamente, viabilizaram a realização do debate defendendo o candidato Serra.

Deixei sem resposta algumas declarações, como os elogios à política externa do presidente Lula, e ouvi outras sem reagir, embora consternada com as demonstrações de apoio a ações do MST, como a destruição dos laranjais da Cutrale. Foram “só” 5 mil pés de laranja onde existiam 30 mil, disse alguém, me levando a pensar: qual será o número capaz de despertar a indignação desses jovens para os quais os fins justificam os meios?

Para quem defende a democracia, não importa se os presos políticos da ditadura repugnante de Cuba são cinco ou cinquenta. Da mesma forma, uma única mulher condenada ao apedrejamento é capaz de espelhar toda a insanidade do fundamentalismo do Irã. Mas, voltando aos pés de laranja, um pé destruído basta para causar indignação em quem não reconhece o direito de alguém dispor do que não lhe pertence.

Perdi a oportunidade de dizer isso no calor do debate e deixei os meninos argumentando sozinhos. A eles peço desculpas. Aos muitos defensores da candidata Dilma eu apenas reitero que, como jornalista, cobri as greves do ABC que começaram a mudar o Brasil. Testemunhei o nascimento político de Lula e também compartilhei os sonhos que embalaram a criação do PT. Vi com tristeza o partido sacrificar a ética ao sabor das conveniências políticas e deixar gradualmente sua condição de reserva moral. Embora não tenha votado no Lula, também me emocionei ao ver um operário chegar à Presidência da República.

Afinal, essa é a força e a beleza do regime democrático.

Nem sempre vence o candidato que consideramos mais preparado ou mais competente, mas sempre vai prevalecer a vontade da maioria.

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O BOM DEBATE E A SUPERAÇÃO DOS FUNDAMENTALISMOS POLÍTICOS

Por Mauro M. Braga

Acho que o debate de ideias deveria ser sempre priorizado em qualquer instituição de ensino que compactue com uma educação libertadora. Ao conceder espaço para essa iniciativa, na última sexta-feira, nosso colégio oportunizou a aproximação entre o discurso e a prática – coisas que costumam andar tão distanciadas em todas as esferas sociais, inclusive entre muitos integrantes da “Família Medianeira”, sejam eles pais, alunos ou educadores.

Para os presentes que lá estiveram com a cabeça mais aberta, foram duas horas de muito proveito para a construção da cidadania, onde o respeito e a suavidade na colocação de argumentos não deram espaço ao clima eleitoral agressivo e acirrado que tem tomado as ruas, cyberespaços e a mídia brasileira, especialmente através de alguns de seus veículos mais sujos e com longo currículo na desconstrução da democracia no Brasil, como a Veja ou a Rede Globo.

Longe das baixarias factoides, foi realizado um bom debate. E uma das razões para isso foi a gentileza e elegância com a qual a minha “oponente”, a mãe de um ex-aluno, Sônia Stabile (a quem agradeço mais uma vez pela participação) expôs seus argumentos.

Os destaques positivos foram o respeito demonstrado na imensa maioria das falas, a busca da argumentação relevante pelas partes e a boa organização, que garantiu espaço a todos os presentes, como deve ser, sem qualquer privilégio.

No entanto, na mesma linha do artigo divulgado posteriormente pela Sra. Sônia, também tomo a liberdade de fazer referência a três pontos que, evitando usar a expressão “destaques negativos”, eu diria que me causaram alguma estranheza.

Primeiro, a quase ausência (havia apenas um representante) de integrantes da entidade promotora do evento: o Grêmio Estudantil do Medianeira. Gente: não basta só ter a coragem de “botar pilha”. Debate é confronto de ideias, que pode (ou não) desinstalar posições – o que é ótimo! O espaço foi dado. É preciso se expor, participar mais…

Em segundo lugar, o registro de algumas (poucas) falas, seja desfilando alguma das velhas máximas pejorativas contra o nosso Presidente nordestino ex-operário-retirante (até compreendo… ter que engolir sua competência e popularidade é, de fato, muito indigesto para as nobres elites brasileiras, não?), ou ainda em temas polêmicos como o MST, revelando preconceitos típicos (“aqueles vagabundos…”) de quem ainda carece de maior qualificação na formação humana que tanto prezamos e cai na armadilha de uma postura tipicamente fundamentalista, mal disfarçada de “criticidade” ou “democracia”. O fundamentalismo – é bom lembrar – se caracteriza, entre outras coisas, pela soberba, a certeza da razão e o bloqueio mental contra visões diferentes daquilo em que se acredita. Acirramentos eleitorais provocam posicionamentos fundamentalistas, cuidado!

Finalmente me causou ainda mais estranheza que um tema que nem sequer apareceu, em nenhum momento, nas discussões de sexta-feira – o regime cubano – tenha surgido justamente agora, caindo “de pára-quedas”, nos comentários pós-debate. Lamento a provocação, a que considero absolutamente inoportuna, e por isso não julgo que deva rebatê-la.

Mas o debate, em si, foi ótimo, viu? Quem perdeu, vê se sai do casulo da próxima vez e tenta se desinstalar um pouco…