(Pintura de Paulo Auma) -

Quando ainda criança eu ouvia os meus pais falarem sobre o filho de algum parente ou vizinho: que felicidade para os pais… o menino se aprumou, virou gente, arrumou emprego e até pensa em fazer a faculdade. Outra vez, falando de algum casal que estava meio de rusga, até falando de separação, eles diziam complacentes diante de alguma notícia que alguém trazia do dito casal… veja bem, no fim eles se acertam, besteira essa de separar por qualquer briguinha. Feliz, feliz, ninguém nunca fica… tem que tentar se ajeitar…

Revivendo algumas inesquecíveis partículas de lembrança da dita felicidade, eu me remeto a esse jeito dos meus pais falarem dela. Hoje me parece compreensível, mais do que naquela época, com certeza. A dita felicidade era encontrada na vida simples de cada casa, de cada família, com suas dificuldades. Por amarras da simplicidade e por desejo de consolação, a casa e a família dos outros continuava sendo alguma medida para a gente valorizar, não necessariamente a FELICIDADE, mas a ausência de pequenas e grandes fatalidades. Era o viciado que ninguém sabia o que fazer com ele, a doença cujo nome não era falado… só sussurrado, se não tivesse criança perto, era a perda abrupta de algum ente querido, sem que se tivesse tempo de cuidar dele.

É com o sentimento surrado de quem olha fotos antigas que me assusto com a estridente chamada para a felicidade nos dias atuais demais para o nosso pouco tempo. Se não é encontrada, o que possivelmente mantém muita gente à sua procura, ela não deixa de ser vendida pelos corpos tornados atraentes nas revistas e nas passarelas. Ela é vendida nas coisas que produzem sensações, impressões, prazeres, e, quem sabe… alguma felicidade. A casa, o carro, as roupas, as viagens de onde se trazem centenas de fotos pouco desfrutadas depois.

Mas tudo isso era um pouco previsível e cada época criou seus símbolos de felicidade. O que é mesmo preocupante é o quanto corremos o risco de educar nossos filhos temendo que algo os faça infelizes. Afinal, tentamos suprir suas vidas com o que de melhor podemos obter. Querendo ou não, nossa impotência é incontornável. Não podemos (e não devemos) cercá-los para que não sofram. De um amor não correspondido, esse então… adeus pai e mãe… ninguém pode fazer nada. De uma solidão de não fazer todos os amigos que se quer… nada a fazer. Do convite que não veio para a festa mais badalada, nem para a menos badalada… o que fazer? Do conflito na escola que produziu a terrível impotência de não ser ouvido ou de ser penalizado injustamente. E por que não dizer… do resultado das provas que não traduzem todo o estudo e todas as coisas de que se abriu mão?

Françoise Dolto, uma figura interessantíssima que ajudava muitas pessoas a se conhecerem melhor e a suportarem as duras travessias da vida, insistia na urgência de integrar nossas crianças à vida da casa e da comunidade a que pertencem. Significava atribuir a elas funções, cooperar com elas através de nossas histórias, endereçar o devido valor para os que cuidam delas: quem são, quanto ganham, onde moram, como vivem, porque trabalham ali. Significava também falar da doença, da fragilidade humana, da morte, da vida e das passagens que são um pouco de morte e de vida.

Dessas lições destaco a importância de narrarmos para os nossos filhos as nossas histórias, de nossos pais e de nossos avós. Não com o peso de que devem aprender pelo sacrifício. Afinal, muitos já alertaram, com diferentes linguagens, que “a educação pela pedra é antididática” e pode tirar a leveza do que se aprende pelo que foi ouvido.

O outro extremo, de subtrair dos filhos nossos depoimentos de vida para que não sofram, impede-os de saber das experiências que mais nos marcaram e que nos fizeram ser o que somos. Mais ainda, podemos tentar suprir com coisas, favores, concessões e benevolências, querendo que sejam felizes. De certa forma, isso significa tomar emprestada a vida que é só deles, para tentar fechar lacunas que são nossas. É inútil tentar protegê-los a qualquer custo. Em encruzilhadas que eles viverão, saberão que as coisas não substituem as pessoas e suas memórias. Meus pais, sem muito estudo, já sabiam disso. Eu sei porque eles me ensinaram.

Geralda Colen