Há uma euforia enorme, atualmente, em função conquistas alcançadas pelo ser humano com o avanço da internet nas mais diversas atividades. Conheço pessoas que simplesmente acabam não tendo o que fazer no seu trabalho quando “cai” a conexão da internet. Simplesmente vão para casa (que chato isso, né?).

E o que a internet tem nos tornado? Mais inteligentes? Talvez, uma vez que acessamos informações que, antes da entrada da tecnologia em nossos lares e locais de trabalho e estudo, jamais teríamos alcançado. Digerimos um conhecimento maior, uma base maior de dados – e saber é poder, como diriam. Mas Nicholas Carr discorda de tudo isso.

Em seu livro “The shallows: what the internet is doing to our brains”, Nicholas chega a uma conclusão óbvia, mas que me parece que não temos dado tanta atenção: a distração do excesso de informações e as redes sociais estão ocupando demais nosso tempo, muito mais do que o devido uso produtivo (seja no trabalho, seja no estudo).

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o escritor afirma que, inclusive, crianças diagnosticadas por todos os “psi-” (-quiatras, -cólogos, -copedagogos, tem mais?) com o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) acabam “turbinando” sua condição em função dos estímulos  dos videogames, páginas como o Facebook, smartphones se conectando ao Twitter, dentre outros. E, convenhamos, a última sensação que possuímos ao estarmos conectados é a de profunda concentração em uma única atividade ou informação.

A própria capacidade de pesquisa se encontra em situação delicada. Hoje vamos direto à fonte. Muitos acadêmicos, ao receberem uma determinada orientação para pesquisa, apenas têm se dado ao trabalho de digitar o tópico no Google. Pegam a primeira página de resultados, do jeito que se apresenta, põem uma capa e formatam. Está pronto o trabalho. “Mas por isso mesmo precisamos orientar no sentido de pesquisas mais críticas!”, dizem. Nossa, hoje o que mais vemos na internet são blogs de opinião sobre os mais diversos assuntos.

De fato, diversos trabalhos acadêmicos têm sido feitos a partir das mágicas teclas “ctrl+c” e “ctrl+v”. Uma vez ouvi de um amigo meu uma história tragicômica de seu colega de faculdade que, fazendo uso das múltiplas habilidades na língua alemã, havia encontrado uma monografia na internet deste idioma. Seu único “Trabalho de Conclusão de Curso” foi traduzir a produção (ah, se naquela época existisse o Google Translator, as coisas seriam bem mais fáceis para ele!). Para seu azar, no dia da defesa, um dos professores da banca já havia tido um contato com o assunto tratado na obra. O aluno foi expulso da Instituição.

E como era o mundo antes disso? Biblioteca, jornal, revista… mas até que se achasse exatamente o fundamental para a pesquisa, uma coisa era certa: você tinha que ler consideravelmente até conseguir filtrar o necessário. Evidentemente que, no caso do Brasil, colabora para nos preocupar ainda mais este baixo panorama atual de leitura o alto custo dos livros (o índice de leitura e de compra de livros é de 17% entre os brasileiros – 1,7 livros per capita – de acordo com nosso Ministro da Cultura, Juca Ferreira), por exemplo. Mas até a média de leitura escolar nossa é péssima, inclusive em setores sociais mais beneficiados financeiramente e, principalmente, com maior disponibilidade de tempo. Precisamos ler mais – e de verdade. Seja no computador, seja com as obras “físicas”. E o Kindle, os e-readers? Bem, aí já é demais para mim. Quem possui deixa um post para me dizer se estes recursos estimularam ou não a sua leitura.

Descaso: Uma escola estadual de Bauru (323 km de São Paulo) jogou livros no lixo e colocou fogo, incluindo alguns clássicos. Leia na íntegra: http://oglobo.globo.com/cidades/sp/mat/2009/12/11/escola-publica-de-sp-joga-no-lixo-queima-dezenas-de-livros-915154711.asp . Foto: João Roberto Alcará/ Reprodução de imagem TVTEM

Vale muito a pena ler o livro “Freakonomics – o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta”, de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner. Uma série de análises e pesquisas numéricas sobre os mais variados temas são realizadas nesta obra. De acordo com o levantamento dos autores, você que está preocupado com a baixa leitura de seu filho, precisa avaliar o seguinte: não adianta comprar uma verdadeira biblioteca em sua casa para estimular a leitura. Uma boa parte de filhos-leitores possuem sabe o que? Pais-leitores, que se interessam, dão exemplos e leem junto com seus filhos.

Hoje valoriza-se a multitarefa e a rápida e breve transmissão de informações. E é exatamente esta a característica das novas gerações. Empresas e escolas têm diagnosticado estes perfis em seu corpo de funcionários e alunos. Com certeza são qualidades ímpares. Mas estamos perdendo a concentração e a profundidade que, convenhamos, são virtudes muito importantes.  Não é saudosismo não, apenas precisamos ler mais. Aliás, conseguiu ler até aqui?

Leandro Guimarães