Delicio-me ao ouvir a chuva caindo sobre o solo, aí ao lado da sala em que escrevo. Não resta dúvida de que bem antes de mim – e com um ouvido muito mais sensível e educado a perceber a música do mundo -, Hermeto Pascoal, esse mago alagoano, já distinguia o som das gotas de chuva espocando sobre a grama, daquelas que se espatifam sobre um solo esturricado e rachado como o rosto do povo sofrido pela estiagem e daquelas que, engrossadas, rumorejam junto à sarjeta em sua correria desenfreada rumo ao abismo do bueiro.

Havia mais de um mês que chuva de verdade não caía. É necessário deixar isso claro, possivelmente duvidariam da saúde mental e, provavelmente deixariam de ler as linhas seguintes – e eu até entenderia o motivo. Um curitibano, quietinho, debatendo consigo próprio no interior de sua cachola, concluir que vê alguma graça na chuva, vá lá; mas, daí a admitir publicamente o seu apreço pluvial, expresso em palavras que instantaneamente se espalham pelo mundo afora pelas vias eletrônicas, aí já é pouco comum, quem sabe, ensandecido.

Como dizia, delicio-me ouvindo o tamborilar das gotas de chuva…, porém não demora muito começo a me angustiar. Conferi a previsão do tempo e ela promete que a chuva prosseguirá pelo resto do dia, amanhã também e ainda depois de amanhã e pelos dias seguintes até onde a previsão meteorológica se aventurou em sua científica adivinhação. Estou prestes a dizer “Ai meu São Pedro, não pára de chover, homem de Deus… ”  Um dia, há alguns anos, abri a janela de casa e berrei aos céus para que não mandassem mais aquela chuva que por vários dias sobre nós se despejava. Não fui nada educado. Amaldiçoei alguém lá em cima. Não sei, mas acho que o método falhou. A chuva continuou incólume, fria (em todos os sentidos). Não me ouviram … quer dizer lá do céu ninguém me ouviu, pois nas casas ao lado, era um tal de abrir a janela e disparar uns olhares e rosnares reprovadores. Ouve até quem dignasse a me sugerir que fizesse algo de útil. Ora, vejam só!

Mas a questão está posta: não nos decidimos (espécie humana, em geral) se queremos chuva ou se desejamos a falta dessa. O mesmo se dá com o ai que calor e com o caramba que frio. O certo é que inconformados, reclamamos. Na era dos procons e dos processos há sempre alguém que já ameaça entrar na justiça contra …, contra…, sei lá, contra alguém! Alguém deve ser responsabilizado por esse tempo que se opõe à vontade do cidadão.

Um tanto mais sério: Nosso conceito de bom tempo e nosso anseio por ele é excessivamente pessoal e egocêntrico, preso em nossas teias das necessidades de curto prazo. Consulto como estará o tempo para o fim de semana, independente de fazer mais de um mês que não chova, torcendo que assim prossiga para aquela santa data do descanso, a fim de que eu possa melhor desfrutar do passeio na praia, no campo ou sei lá onde. Não me importa o outro, que pode ser um agricultor, que está correndo as contas do rosário nas mãos há vários dias e noites, clamando pela chuva. O que eu quero é aproveitar o meu fim de semana. Sou cidadão: tenho o direito de consumir também as condições atmosféricas favoráveis. Que chova depois… bem, pensando melhor: que não seja na quarta à noite porque aí eu vou pro futebol!

O grande etnólogo potiguar Luís da Câmara Cascudo, já falecido, afirmava em uma de suas obras que o conceito de bom tempo varia de acordo com o lugar. Em seu estado nordestino, por exemplo, para a população do interior – o sertanejo -, bom tempo é quando há prenúncio de chuva. Isso mesmo: tempo bom é tempo chuvoso na Caatinga. Como também o é nas diferentes regiões  semi-áridas do mundo. A devoção e o zelo pela água é tamanho entre essas populações que, mesmo muitos anos antes do advento dos discursos ecológicos, Câmara Cascudo comenta que se reconhecia no sul uma pessoa vinda das regiões semi-áridas do Nordeste pelo quase cacoete que invariavelmente esse possui de apertar o registro de uma torneira até o fim ao ver o pingar intermitente do precioso líquido.

De modo que, a despeito das tendências de padronização da qualificação do tempo meteorológico por conta das redutoras e simplificadoras formas de difusão dos veículos de comunicação, além da catarse e, tantas vezes, falta de assunto que fecundam a esterilidade informacional do senso comum, bem, apesar e por causa de tudo isso, talvez valha relativizar a ideia de bom tempo. Esse conceito se transmuta de acordo com o espaço, a cultura e a época das sociedades. Que tenham todos um bom tempo, na calmaria ou sob bons ventos, encharcados até a alma, ou quem sabe, secando-a do avesso ao sol escaldante. E até a próxima lua!

Francisco Carlos Rehme, o Chicho