Semana passada, lendo as provocativas reflexões que o Cezar e o Vinícius deixaram aqui no blog, fiquei pensando nesta história de criarmos cultura, de querermos deixar rastros, de sermos seres dotados de uma razão que, no entanto, não chega nem perto da “lógica de agir e pensar presente nas colmeias”. Também fiquei pensando neste assunto da política que tem se destacado muito nas últimas semanas, diante da proximidade das eleições.

Durante o horário político que assisti um dia desses, fiquei impressionada com a quantidade de vezes em que a palavra “educação” foi citada pelos ilustres. A prioridade de Dilma são os professores. Marina defende uma melhor gestão de recursos destinados à educação. Serra deseja incentivar o ensino técnico. Parece lógico que qualquer candidato tenha algo a dizer sobre o assunto. Aliás, nos debates, este tema tem sido exaustivamente discutido, mais até do que a questão da segurança pública.

Mas voltando ao parágrafo lá de cima: seja pela necessidade de deixar rastros (ou legados, sejam eles quais forem), de transmitir o que sabemos, de potencializar as faculdades ditas do Homo Sapiens, precisamos da educação, uma vez que “educar” significa “conduzir para fora”, ou seja, preparar o indivíduo para o mundo.  Aliás, ao que tudo indica, precisa-se desesperadamente da educação! Mas onde estão os professores no quadro de organização da nossa grande colmeia mundial?

Bem, no meu mundo, que é o de uma cidadã curitibana, pude ter uma certeza: o professor não sente gosto. Como assim? Explico.

Semana passada, a Gazeta do Povo presenteou seus leitores com um guia completo sobre o que há de melhor em termos de gastronomia aqui na cidade, fruto do Prêmio Bom Gourmet. De início, fiquei empolgadíssima. Chega de comer sempre a mesma coisa! Afinal, é muito legal se sentir um turista na própria cidade e descobrir que ela abriga muita coisa de qualidade nesta área.

Mas lá pelas tantas, comecei a ler o perfil dos votantes que elegeram as melhores casas da cidade. Entre um prato e outro, lia um perfil daqui, outro dali… E de repente resolvi voltar ao começo. Só para ter certeza: li todos os perfis para ver se ali, entre tantos jornalistas, artistas, advogados, publicitários, médicos, consultores disso e daquilo, diretores de empresas e empresários, encontraria um professor ou uma professora, destes que trabalham com a educação básica e que também são gente (assim como tantos outros profissionais que foram esquecidos).

Bem, caro leitor, lá não havia nenhum profissional como este. Apenas uns três professores universitários que (sem ofensas), bem se vê que são de outra estirpe, parecem que têm certo glamour…

Ué, mas e aquela conversa toda sobre “educação”?

Tudo bem que os candidatos não têm nada a ver com o encarte do Bom Gourmet, mas penso que ele reflita, ainda que em uma pequena parcela, a forma como o professor da educação básica é visto em nossa cultura. Ou melhor, não é visto. Ou é um ser invisível ou é um ser desprovido de papilas gustativas.

Por fim, engolir este discurso de que a educação é prioridade neste país fica difícil. Mesmo que seja preparado por um bom chef.

Luciane Hagemeyer