Nossa, temos mais um assunto polêmico em pauta. E nem poderia deixar de ser, afinal tem circulado em diversos meios e por diversos tipos de pessoas nestas últimas semanas. Estou me referindo ao caso da iraniana Sakineh Mohammadi-Ashtiani, condenada ao apedrejamento pelo crime de adultério (pode ser condenada a forca também). A história é complicada, porque envolve muita coisa: cultura, geopolítica, papel do Brasil, direitos humanos, globalização… difícil, né?

A facilidade e a velocidade da divulgação de notícias atualmente é, especialmente, causada pelo avanço tecnológico. Claro que estamos longe de um patamar ideal. Se nos referirmos à internet, como não poderia deixar de ser, o acesso à banda larga fixa nas nações em desenvolvimento se situa na faixa de 3,5% da população. Pois é, as maravilhas de um mundo supostamente globalizado não se “globalizaram”. Porém, indiscutivelmente mais pessoas têm mais acesso à informação – mesmo que isto seja muito discutível sob diversos aspectos.

E o que o caso de Sakineh tem a ver? Primeiro: não é o primeiro e muito menos será o último caso do tipo no Irã e em outras nações islâmicas de regimes governamentais fundamentalistas. O acesso que temos a estes casos nos permite sim obter uma maior e mais rápida mobilização do que há 30 anos, por exemplo. O que percebo surgindo à tona, contudo, se relaciona com muita força a uma questão político-econômica, envolvendo em especial a discussão do Irã no cenário internacional.

Confesso ser extremamente delicado discutir certos valores culturais e religiosos. Para mim soam de forma arrogante. Será que nossos valores culturais, como brasileiros, a título de comparação, são os ideais? Se não, porque não mudamos? Por isso mesmo, temos que tomar muito cuidado ao analisar a questão do Irã – sem generalizações ou imposição de um padrão ideal. Agora, uma coisa é sim passível de crítica: nações islâmicas de regimes extremamente fechados tratam com desiguais diferenças de medidas os sexos. Não acredito no argumento de proteção à imagem feminina a adoção da burca no Afeganistão, pois este mesmo país restringe o acesso à educação feminina.

Para saber um pouco mais sobre a crueldade desse regime fundamentalista, leia o artigo sobre a afegã Aisha, na revista Time (em inglês): http://www.time.com/time/world/article/0,8599,2007269,00.html. Não colocamos imagens mais chocantes diretamente aqui no blog por considerar parte do nosso público, composto por crianças a adolescentes.

O Irã toma medida semelhante com o caso de adultério de Sakineh. Porém, o faz muito mais para reafirmar o poder político do presidente Ahmadinejad. E vai continuar fazendo, a não ser que a representatividade feminina aumente ao longo dos anos.

Os EUA (que, guardadas todas as devidas proporções, também matam criminosos condenados pela justiça em alguns Estados) encabeçaram um processo de sanções econômicas contra Teerã com medo do desenvolvimento de armas nucleares. Com certeza isto repercutiu interna e externamente como uma fraqueza por parte do governo de Ahmadinejad. Afirmar decisões soberanas em território iraniano é uma forma de garantir a força do sistema. E, infelizmente, o Brasil com sua política de pacificador e mediador de conflitos, acabou se confundindo e achando que o diálogo funciona sempre no plano geopolítico internacional. A Inglaterra aprendeu duramente isto na Segunda Guerra Mundial pela sua forma de dialogar com a Alemanha antes do conflito. A questão do Irã é muito mais profunda do que a que pretendo discutir aqui, e não tenho a intenção de transformar este blog em uma enciclopédia eletrônica.

Mas eu acredito que você, sábio leitor, não precisa adotar o mesmo raciocínio das nações: buscando punições e sanções. O que precisamos é aproveitar a grande evolução tecnológica da atualidade para nos globalizarmos em prol de uma sociedade mais igualitária de direitos entre homens e mulheres, ricos e pobres, de raça, de respeito às crianças, idosos e em condições especiais. Talvez este momento fosse propício para rediscutirmos o papel da ONU no plano internacional, uma vez que esta tem se colocado como mera coadjuvante em todas as grandes polêmicas no cenário mundial.

Leandro Guimarães