Me digam: que raios têm em comum esses dois caras aí da foto? O primeiro, um tanto excêntrico, com suas vestimentas coloridas, chapéu de palha e vários colares. O segundo, terno e gravata, parecendo um burocrata. Eles combinam mais do que a gente pode imaginar. Chico Science – músico, compositor, letrista – foi um entusiasta e propagador das ideias de Josué de Castro, um sociólogo (e outros tantos títulos) conhecido por tratar de um assunto complicado para os anos 40: a fome.

Vejam se isso não é genial: tentar traduzir nas músicas o pensamento de uma pessoa que, querendo ou não, está relegada apenas a uma pequena parcela de uma suposta elite intelectual.  Chico Science, bem como os que participam do movimento cultural manguebeat, é uma ponte entre o ser intelectual inacessível (Josué) e uma parcela bem mais ampla da população. O alcance dessas ideias, contudo, é impossível de ser medido. Mas, em se tratando de meios de comunicação, acredito que a música tem o poder de se tornar um denominador mais comum do que os livros de Josué de Castro, por exemplo. Por isso, só por isso, devia ser levantada uma estátua gigante de Chi… Não, melhor, ouvir os álbuns de Chico Science devia se tornar ementa obrigatória em qualquer escola deste país.

Vejam que engraçado: Chico não está preso a uma única proposta. Sendo pernambucano de Recife (assim como Josué), sua obra está fincada nos manguezais podres que permeiam a cidade – eles são, inclusive, um dos temas abordados pelos dois recifenses. Josué de Castro tem um livro chamado Homens e Caranguejos (disponível da biblioteca da Fase II). Em sua introdução, ele nos dá uma dica de como a leitura pode ser encarada: “Mas, será mesmo este livro um romance? Ou não será mais um livro de memórias? Talvez, sob certos aspectos, uma autobiografia?” Na verdade, ao que parece, é uma mistura dos três. Por isso, por que não dizer que o livro não se aproxima de um tratado sociológico? Bem, vamos endossar isso: “Foi o rio, o meu primeiro professor de história do Nordeste…”. “A verdade é que a história dos homens do Nordeste me entrou muito mais pelos olhos do que pelos ouvidos”. Ali, nascido à beira de um mangue, Josué compara o homem, ávido por alimentos, com os caranguejos, também famintos, comendo qualquer porcaria que parava no lodo. Para ele, o homem e o caranguejo são irmãos. Irmãos de lama.

Ainda na introdução, Josué diz assim: “A impressão que eu tinha, era que os habitantes dos mangues – homens e caranguejos nascidos à beira do rio – à medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais lama”.

Uma das músicas mais conhecidas, Corpo de lama, de Chico Science & Nação Zumbi, retrata algo parecido com essa passagem: “Este corpo de lama que tu vê, é apenas que sou”. Este corpo de lama não é por acaso, os mangueboys precisam estar cobertos de lama (uma camada grossa) para catar os caranguejos. Isso para se proteger dos mosquitos, muriçocas. Chico Science dialoga, na música Da lama ao caos, literalmente com o mestre: “Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça, quanto mais miséria tem mais urubu ameaça”.

No primeiro capítulo do livro, De como o corpo e a alma de João Paulo se foram impregnando do suco dos caranguejos, Josué se lembra de uma manhã chuvosa com trovões, em que os caranguejos despertam por conta da tempestade e são pisoteados por balaieiros, que seguem seu trajeto. Se Chico Science referencia Josué de Castro claramente, como no caso dessa música “Se o asfalto é meu amigo eu caminho, como aquele grupo de caranguejos, ouvindo a música dos trovões”, não é apenas nesses casos pontuais. Sua obra, como um todo, está coberta, dos pés à cabeça, pela temática da fome, da miséria. O que torna Chico Science atual, trazendo à tona os problemas especificamente de Recife, é a capacidade de aliar Josué de Castro, lá da metade do século passado, com esses problemas que, se não são iguais, ainda são muito parecidos. No manifesto da cena manguebeat, escrito pelo amigo, músico, compositor, jornalista Fred 04 (da banda Mundo Livre S/A) em 1992, que está impresso no encarte do disco Da lama ao caos, a situação é a mesma: “O Recife detém hoje o maior índice de desemprego do país. Mais da metade dos seus habitantes moram em favelas e alagados. Segundo um instituto de estudos populacionais de Washington, é hoje a quarta pior cidade do mundo para se viver”.

Para finalizar, vai um trecho da terceira parte do manifesto, chamado Mangue – A cena:

Emergência! Um choque rápido, ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico pra saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruir as suas veias. O modo mais rápido também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paraliza os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco da energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
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