(Salto Fortuna)

Vai aí uma dica para quem aprecia uma caminhada na Floresta Atlântica e que é coroada com um banho de águas tão límpidas quanto gélidas que lavam a alma.  Há várias opções nos pés, nas encostas e nos cumes de nossa graciosa Serra do Mar. Aliás, cá entre nós, muito precisa essa denominação de mais de dois séculos para um dos conjuntos de montanhas que compõem a Serra do Mar no Paraná: Serra da Graciosa. Mas, a sugestão que por ora indico é a Trilha do Salto do Fortuna ( e é no masculino mesmo, pois refere-se ao rio Fortuna, um dos que despencam da serra e ajudam a engordar o Nhundiaquara, aquele famoso rio do boia-cross, ou ainda: aquele que cruza a cidade de Morretes, e mais: o rio das pontes de ferro…).

Se você está de carro ou de bicicleta, a aventura começa pela bela Estrada do Anhaia. Velhas casas de antigas fazendas e engenhos de cana com seus alamb… hic…s perfilam-se de forma esparsa em cada margem do Anhaia. Para os que cultivam o sentimento cosmopolita de nômade, andarilho pelo mundo (seja pelas leituras, pelos filmes, ou pelas caminhadas físicas mesmo), aos que não rejeitam uma chance de estar on the road again, é certo que vai incluir essa rota em suas peregrinações: Estrada de chão, biodiversidade de encher os olhos, uma mistura agradavelmente balsâmica de capim agridoce sendo exalado ao mínimo calor, mais a madeira do carvalho dos barris e ainda o barroco das construções pra lá de cem anos. Isso não se conceitua, apenas se sente.

A estrada do Anhaia termina com as tubulações do oleoduto da Petrobras. Longe de ser um anticlímax: esqueça o óleo, o gás carbônico, o aquecimento global e tudo o mais que impera no petroreino, para constatar: ali também é a entrada do Parque Estadual do Pau Oco. Área tombada para conservação da mata, dos rios, dos tucanos,macacos,  onças que ali vagueiam.

Final da Estrada do Anhaia – Parque Estadual do Pau Oco.

O carro (ou a bicicleta) fica e você prossegue. Uns quinhentos metros adiante da porteira do parque você vê uma placa que sinaliza que está no caminho certo e que é preciso mais 1250 metros para chegar à cachoeira. A um passo tranquilo, que combina com quem aprecia tudo ao longo da trilha, em uma hora chega-se lá.

Tem uma surpresa no meio da trilha: numa certa altura desponta do chão sempre forrado de folhas, gravetos e serpenteantes raízes de figueiras, o calçamento escorregadio de um histórico caminho colonial. É o Caminho do Arraial, ou melhor, uns vinte metros desse caminho ali – literalmente – descoberto. Essa antiga via conduziu índios, aventureiros de sangue ibérico, escravos africanos, padres jesuítas,  garimpeiros  e imigrantes italianos que seguiam de Morretes para o antigo Arraial Grande (hoje no município de São José dos Pinhais), ou no rumo contrário. Quantas histórias essas pedras não têm para contar… ah, se pudéssemos ouvi-las em sua granítica língua, apenas um pouco mudada pelo limo dos tempos…

Caminho do Arraial.

Depois do Caminho do Arraial, tem ainda o sabor de leve aventura quando se atravessa dois rios de cerca de 10 metros de largura, saltitando pelas pedras. O último deles é o próprio Rio Fortuna. Aí você já está na base do salto. São uns vinte e cinco metros de ducha despencando numa piscina natural. Cachoeiras não se comparam, apenas umas são maiores, outras menores, umas vestem com seu véu amplos anfiteatros de pedra, outras se insinuam em instáveis e tortuosos traços brancos movidos para cá e para lá pelo vento. Não se comparam, são todas belas.  O Salto Fortuna é mais um entre centenas que se exibem na Serra do Mar, um pulinho (parodiando o famoso cosmonauta: “um pequeno salto para a humanidade” ou, ao menos para nós, pois de Curitiba até alguma dessas cachoeira,  e dessas de volta até Curitiba, se faz apenas ao longo de poucas e curtidas horas.  Isso se você quiser voltar para Curitiba…

Francisco Carlos Rehme (o Chicho)