Em setembro passado, representantes de várias organizações e movimentos sociais e eclesiais estiveram reunidos na Escola Nacional Florestan Fernandes, em São Paulo, para o lançamento da Campanha Contra a Violência e o Extermínio de Jovens no Brasil. Encabeçado pela PJB – Pastorais da Juventude do Brasil (organismo vinculado à CNBB, composto pelas quatro pastorais de juventude organizadas em âmbito nacional – Pastoral da Juventude Estudantil, Pastoral da Juventude Rural, Pastoral da Juventude do Meio Popular e Pastoral da Juventude das Comunidades), a Campanha vem recebendo a adesão de vários outros segmentos da sociedade, tais como o CONJUVE (Conselho Nacional de Juventude), a REJU (Rede Ecumênica de Juventude) e o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), o Coletivo Jovem da Via Campesina, agremiações diversas do Movimento Estudantil, associações de defesa dos direitos humanos, organizações juvenis de partidos políticos, entre outros.

Qual a relevância do tema para o nosso cotidiano? Os dados do Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008 apontam razões suficientes para gritar pela vida das juventudes de todo o país, e de forma mais específica pelas juventudes de Curitiba e Região Metropolitana. Vejamos algumas dessas razões:

- Seis dos municípios da Região Metropolitana estão entre as cidades mais violentas do País. Colombo, por exemplo, é a 133ª cidade mais violenta do país em número de mortes; já Rio Branco do Sul é a 138ª cidade mais violenta do país quando consideramos o índice de mortes em relação à população total – com taxa de homicídio de 51,9 mortes a cada 100 mil habitantes, por ano. Curitiba, que ocupa a 206ª posição nesse mesmo ranking, com taxa de homicídio de 44,7 (mortes/100 mil hab.), também é a 3ª capital mais violenta do país, se considerada a taxa de homicídio (ficando abaixo apenas de Aracaju e Recife), e a 7ª em número total de homicídios: foram 874 mortos em 2006, o dobro em relação a 2002, enquanto em São Paulo e Rio de Janeiro este índice caiu aproximadamente à metade.

- Quando consideramos apenas os homicídios de jovens, esse número sobe alarmantemente: só em Curitiba, foram 382 jovens mortos em 2006, o que representa um índice de 109,6 jovens mortos a cada 100 mil habitantes. O Paraná é o 6o Estado brasileiro em número total de homicídios juvenis: em 2006, assassinamos 1.146 jovens; este número corresponde a 6,68% dos homicídios totais de jovens no Brasil, que foi de 17.161 no mesmo ano. Considerando que a população total do estado do Paraná corresponde a 5,6% do povo brasileiro, significa que matamos mais jovens em relação aos demais estados do país na comparação com a população total. A isto chamamos de vitimização juvenil, que é quando há mais jovens morrendo, vítimas da realidade social na qual se inserem, do que outras parcelas etárias da população.

- No caso de Curitiba e RMC, onde a população juvenil é de cerca de 30%, qualquer índice que ultrapasse essa marca, considerada dentro dos padrões, indica vitimização juvenil. Ora, Curitiba – a “Cidade Modelo” – teve um índice de 44% de jovens mortos em relação ao total de mortes ocorridas em média entre 2004 e 2006! E isso não é nada se compararmos a outros municípios da Região Metropolitana: Almirante Tamandaré e Pinhais ocupam, respectivamente, o 11º e o 23º lugar no ranking dos municípios que mais matam jovens no país (com taxas de 51,6% e 48,5%). E como apontam os pesquisadores responsáveis pela elaboração do Mapa da Violência, “municípios onde mais da metade das vítimas de homicídios foram jovens [tem] sérios problemas de exclusão juvenil” (MAPA DA VIOLÊNCIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS 2008).

- Se considerarmos ainda outras formas de violência que não apenas a de tipo físico, teríamos outras amostras da gravidade da situação da violência contra as juventudes em nosso país e em nossa cidade: o desemprego, forma de violência estrutural, foi de 6,3% em Curitiba e Região Metropolitana no mês de março, atingindo 97 mil pessoas; mas foi mais incisivo entre os jovens de 18 a 24 anos – 11,6%, ou seja, são 29,7 mil jovens sem trabalho e procurando emprego. A violência sexual também afeta em cheio a infância e juventude de nossa cidade: só em 2008, o Hospital Pequeno Príncipe atendeu 354 crianças e adolescentes vítimas de maus tratos, aumento de 16% em relação a 2007 – segundo os números do hospital, a violência sexual ainda lidera o ranking da instituição, com 230 ocorrências.

São razões suficientes para gritar. Várias ações estarão ocorrendo em todo o país para dar visibilidade ao tema; a próxima delas será o DNJ – Dia Nacional da Juventude, que aqui em Curitiba será realizado no próximo sábado, 24 de outubro, com uma concentração na Praça Tiradentes e mobilização durante todo o dia nas ruas do centro. Fica o convite e a certeza de que a construção de um mundo mais justo e solidário, para a qual buscamos contribuir com as ações educativas em nosso colégio, passam pela defesa irrevogável da vida dos jovens e das jovens de todo o Brasil e de seus direitos.

“Não dá mais para ficar parados diante de tanta situação de morte à nossa volta. Vamos juntos marchar para denunciar as pessoas, os sistemas e as instituições que banalizam a vida. […] queremos anunciar com toda força a vitalidade da juventude que sonha e busca viver num espaço seguro, real, que lhe dê garantia e perspectiva de realização de seu projeto de vida”

(Pe. Gisley Azevedo Gomes, assessor do Setor Juventude da CNBB, assassinado em 15 de junho de 2009).

Um abraço.

Carlos Renato Moiteiro