O livro O homem que calculava conta as intrigantes histórias do humilde calculista persa, Beremiz Samir, na medieval Bagdá do século XIII. A narrativa, contada por Hank Tade-Maiá, amigo e admirador de Beremiz, relata as aventuras do homem capaz de solucionar, e explicar de maneira fabulosa, diversos problemas e impasses utilizando os números, cálculos e a lógica matemática.

Para quem não leu o livro, mais que a indicação da leitura, vou deixar um pequeno “aperitivo” para, quem sabe, despertar a fome de ler.

Beremiz e seu fiel escudeiro viajavam em um único camelo rumo a Bagdá quando se depararam com três homens em uma acalorada discussão acerca da herança – de 35 camelos – deixada pelo falecido pai. De acordo com o testamento, metade da herança iria para o filho mais velho, a terça parte ao do meio e a nona parte ao caçula. Ocorre que a metade da herança corresponde a 17 camelos inteiros e uma metade de camelo, a terça parte resulta em 11 camelos inteiros mais 2/3 de camelo, e a nona parte em 3 camelos inteiros e  8/9 de camelo. Obviamente que as frações de camelos não teriam grande serventia aos homens, exceto para um churrasquinho de final de semana. Além disso, nenhum irmão estava disposto a ceder sua fração de camelo ao outro para poupar a vida de um animal. Como fazer esta partilha se a metade, a terça e a nona parte da herança não são exatas?

“É muito simples – atalhou o homem que calculava. – Encarrego-me de fazer, com justiça, esta divisão, se me permitirem que junte aos 35 camelos da herança este belo animal que, em boa hora, aqui vos trouxe”.

A divisão, neste momento, dos 36 camelos (35 camelos herdados mais o oferecido por Beremiz) é feita com exatidão.

O irmão mais velho ganha a metade de 36 camelos, isto é, 18 camelos. O irmão do meio recebe sua terça parte, que corresponde a 12 camelos, e o caçula fica com 4 camelos.

“ – Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos – partilha em que todos saíram lucrando – couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um resultado de 34 camelos. Dos 36 camelos, sobraram, portanto, dois. Um pertence, como sabem, ao bagdali, meu amigo e companheiro, outro toca, por direito, a mim, por ter resolvido, a contento de todos, o complicado problema da herança.”

A solução de Beremiz ao problema da herança dos 35 camelos parece mágica. Mais que isso, é fabulosa. Não cometeria, de forma alguma, o pecado de desvendar os segredos deste desafio matemático. Vou deixar a você, meu caro leitor, o prazer de solucionar o enigma que está por trás do problema.

O homem que calculava nos permite enxergar a Matemática a partir de um ângulo bastante diferente daquele a que estamos acostumados. Tenho, com profundo pesar, a ciência de que a magia e a beleza da Matemática, e também da Física, ainda não tocam nossos estudantes – brasileiros – como desejamos. Na realidade, estas disciplinas são ainda encaradas, por muitos destes, como os grandes algozes no Ensino Fundamental e Médio, responsáveis pelo fracasso escolar e repúdio ao estudo.

Júlio César de Melo e Sousa (mais conhecido pelo heterônimo de Malba Tahan), autor de O homem que calculava, e também professor de Matemática, certamente carregava consigo esta mesma angústia. Júlio César ganhou destaque pela sua critica aos métodos e estruturas ultrapassados e cristalizados de ensinar a lógica e o cálculo: “O professor de Matemática em geral é um sádico. Ele sente prazer em complicar tudo”.

Guilherme Dal Moro