Mujahedins, Talebans, Al Fatah, Hamas… complicado, não? Realmente, entender tudo o que se passa no Oriente Médio tem sido cada vez mais difícil. São tantos acontecimentos, em diversos graus de complexidade, por povos, culturas, tradições das mais diversas. Para nós, especialmente os brasileiros, cuja variabilidade étnica e religiosa parece tão mais fácil de ser compreendida, muitas vezes pode se tornar tortuoso entender qualquer coisa que seja do Oriente Médio. Por onde começar, afinal? Agora, se kebab, falafel, sharbat e moussaka não fazem parte definitivamente do seu vocabulário, então a situação já chega a ser perigosa!

Bem, eu gosto de começar pela música. Música é remédio, matemática, spa e, principalmente, cultura. Aliás, o certo seria que eu começasse pela própria música do Oriente Médio para explicar algumas coisas aos leitores, mas nós somos muito ocidentalizados para chegarmos a tal ponto. Por isso vou falar de uma banda muito importante para a história musical popular para tentar captar alguma coisa do Oriente Médio. Esta banda chama-se The Clash.

Puxa vida, não é moleza falar de punk. Mesmo porque a imagem do punk para muitos é a de pessoas maltrapilhas, largadas, fedidas. E se falarmos de música punk então, daí a conversa desanda de vez. O que teve de bandas punks que, para funcionar, bastava sair um ruído dos amplificadores que já estava valendo.

Agora, é indiscutível o papel cultural do punk. Ele foi o reflexo de uma geração que, de certa forma, se considerava inviável no sistema. Seja pelos acessos culturais tradicionais, seja socialmente, e/ou por meio do trabalho e da renda. Rebeldia, contestação de valores… não era fácil segurar os punks!

The Clash. Foto de 1976.

O The Clash foi uma banda punk, com toda a certeza. Agora, não podemos negar que também os caras eram excelentes músicos. Completos: marcados por serem bons instrumentistas e bons compositores. Sempre se portaram contra a monarquia britânica e a favor dos movimentos libertadores. Só que o radicalismo do apoio a certos grupos terroristas como o IRA (Exército Republicano Irlandês) fez o vocalista da banda, Joe Strummer, a rever alguns de seus pensamentos. Acabou compondo “Tommy Gun”, uma renúncia à violência como forma de protesto. Mas, no panorama tempestivo das décadas de 70 e 80, resolveram botar as mangas de fora e explorar a questão do Oriente Médio com uma belíssima música: Rock the Casbah.

Um dos motivos supostos para a composição desta canção seria uma inspiração dos integrantes da banda com o ato do Ayatollah Khomeini, líder supremo do Irã de 1979 a 1989, que havia na época banido a execução de canções de rock no Irã (bem como outros elementos da cultura ocidental, como cinema e literatura). Vale observar que o atual presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad baniu as execuções de músicas ocidentais nas emissoras estatais desde 2005.

Rock the Casbah significaria, de fato, uma menção à população que estaria ouvindo rock na casbah. Esta “Casbah” é uma referência às fortificações de cidades orientais. A menção “Casbah” é também uma referência à Frente Nacional Libertadora (FNL), de Argel, que liderou o processo de luta de independência da Argélia da colonização francesa. A Casbah era a vila que se situa acima da cidade velha, onde os membros da FNL se situavam.

A cidade de Mazar–e Sharif, Afeganistão – 1990 No céu, próximo ao minarete, um helicóptero russo. Fotografia de Reza National Geographic.

Para a infelicidade geral, os soldados americanos da Guerra do Golfo utilizaram esta música como um símbolo para representar o bombardeamento da população do Oriente Médio, o que  é completamente equivocada esta relação. Foi feita uma triste associação por causa da expressão “rock the casbah” – uma intromissão da cultura ocidental nos costumes orientais e “drop your bombs between the minarets” – joguem suas bombas nos minaretes, as famosas cúpulas das mesquitas.

Alguns anos depois, na Guerra do Iraque (ah, essa tal de Mesopotâmia!) de 2003, a música volta a ser uma das mais executadas nos Estados Unidos. Na Guerra do Golfo de 1991 o vocalista do The Clash, Joe Strummer, chorou ao saber que soldados haviam grafado em uma das bombas lançadas contra a nação iraquiana a expressão “rock the casbah”. Strummer afirmou que havia ficado extremamente decepcionado por sua música ter sido considerada um símbolo de algo que ele repudiava: “o símbolo da morte” gerada pelas ações imperialistas norte-americanas.

É uma pena que, nestes últimos anos, a geração mais jovem (antes de mais nada, beeem mais jovem!) tenha cantado o refrão de uma famosa música da banda a partir de um comercial veiculado na televisão. Agora, pode apostar, infelizmente sequer sabem que estão cantando “Should I stay or should I go”, do próprio Clash. Mas adoram mandar torpedos (no bom sentido, né? Não nos minaretes!) pela respectiva operadora de telefonia celular, que utilizou a música para atrair novos clientes aos seus planos de telefonia.

Bem, se depois de tudo isso, você ainda está achando complicado compreender o Oriente Médio, ou pior, se não entendeu nada do que leu, então que tal dar uma relaxada e sair para comer um kebab, acompanhado de uns goles de sharbat? É um bom começo!

Leandro Guimarães