A (DES)CONSTRUÇÃO

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Onde havíamos parado nossa história mesmo? Ah, sim, paramos na pausa! No silêncio que a aprendiz de professora vem tentando praticar no lugar do grito. Silêncio que carrega em si a pergunta “Como ensinar nossos alunos sobre o respeito ao outro, sem descolar o discurso da prática?”

Pois bem, lá estava nossa aprendiz congelada no meio de uma turma em polvorosa. Porém, desta vez, diferente das outras, o silêncio não funcionou. Os alunos estavam especialmente agitados. E talvez alguns quisessem testar o limite do silêncio indo ao limite do blá blá blá. O fato é que o congelamento que costumava durar alguns segundos não durou menos do que dez minutos!

Neste meio tempo, alguns alunos, justo os que mais contribuíam para a bagunça, saíram da sala alegando estarem entediados de tanto esperar. Nossa aprendiz, com a mente perdida no meio do silêncio tumultuado, pensou: “sair da sala desta maneira rompe com os acordos feitos no início do semestre de que priorizaríamos o trabalho em grupo e o respeito pelos colegas. Não posso retomar a aula sem que todos estejam presentes e atentos! O ato destes alunos deve ter alguma consequência. Mas qual?”

Quando finalmente o silêncio se fez, e ela pôde tomar a palavra, disse que “os alunos que escolheram abandonar a turma num momento complicado, escolheram não compartilhar dos momentos positivos e divertidos que viriam logo em seguida”. E, portanto, não participariam dos jogos e brincadeiras de aquecimento. Os alunos que levaram a sanção reclamaram, sentiram-se injustiçados. Os outros acharam pouco e queriam a aplicação de um castigo. A confusão quase voltou a reinar, mas a aprendiz manteve sua palavra. Junto da raiva que sentia (não podia negar) queria, com tal sanção, que os alunos percebessem que suas escolhas têm consequências, e que eram responsáveis por elas.

A aula seguiu, a turma toda foi para o bosque pesquisar o som e o silêncio.

Em casa, nossa aprendiz não conseguia dormir, insatisfeita que estava com a resolução do conflito. E realmente não descansou até vislumbrar uma forma na qual a situação conflituosa pudesse resultar num aprendizado para todos.

Passada a agitação, pôde perceber que o problema não era um ou outro aluno, mas sim as ações destrutivas que todos nós, de tempos em tempos, manifestamos. “É como se algo em nós agisse contra nós mesmos e os outros – ela pensou – e o que fazer frente a isso?”

Tentando responder essa pergunta, ela posicionou o tripé, escolheu um enquadramento e pôs-se a falar para a câmera como se esta fossem os alunos.

Na aula seguinte, enquanto os alunos assistiam ao vídeo, fizeram silêncio. Combinaram que iriam manter uma escuta interna atenta à direção que a força estava tomando. Não se pode dizer que a aula foi pacífica, nem que não houve momentos de dispersão e desrespeito. Mas ao menos criou-se uma linguagem entre todos que facilitou a percepção e apontou para um caminho. Nenhum congelamento foi necessário!

Jessica Candal