Não lembro como eu aprendi a andar de bicicleta. Também não lembro de ter uma bicicleta só minha até os oito anos de idades. O que me lembro é que no dia das crianças de 1993, quando eu tinha oito anos e meio, ganhei uma Caloi Aluminum verde, aro 26, de 21 marchas. Era um pouquinho grande pra mim, mas, eu ficava muito feliz com ela, porque sabia que aquela bicicleta poderia me acompanhar por um longo tempo que estava por vir.

Nos anos seguintes eu estava totalmente adaptado a ela e assim seguimos juntos até 2007, quando finalmente comprei outra – uma Caloi City Tour, branca, aro 700, 24 marchas. A Verdinha eu deixei de lado; por muito tempo, ela ficou acumulando sujeira numa garagem, enquanto eu só tinha olhos para a Branquinha modelo novo.

Em 2012 resolvi fazer uma revisão na Verdinha e deixar ela apta para alguns passeios ocasionais. Dito e feito. Passou mais um ano. Em um belo sábado de sol, acordei e olhei para o lugar onde ela costumava ficar encostada na minha casa. Depois de completar duas décadas comigo, ela já não estava mais lá. Alguém sorrateiro a levou de noite para eu nunca mais ver. Senti um peso no coração. Uma dor de saudosismo, por tudo aquilo que vivemos juntos… Mas, também, pensando hoje, entendo que ela cumpriu um ciclo importante em minha vida. Lamento sua partida, mas, vivo tranquilo sem ela.

Ano passado, maio de 2014, a minha Caloi City Tour pediu socorro. O seu quadro simplesmente quebrou. E então, depois de quase 7 anos de uso diário, depois de amadurecimento pessoal, depois de ascensão profissional… eu pensei: e se eu comprar uma bicicleta nova?

Lá fui. Pesquisa, pesquisa, pesquisa. Reflexão, reflexão, reflexão. Concluí que eu iria comprar uma Caloi City Tour… Modelo 2014. A bike foi totalmente reformulada pela marca, adquirindo outro propósito, outra geometria, outras qualidades e outra cor (cinza escuro). Na minha pesquisa, concluí que ela se adequava aos meus ideais do momento. E comprei! De lá pra cá, foi um ano de relacionamento intenso – flerte, paixão, encontros diários, carinho, aventuras, amor, compreensão e adequação. Escurinha e eu.

Agora, na total comunhão entre nossas aptidões (bicicleta e eu), um bandido sorrateiro levou a minha bicicleta principal, a Escurinha. Não foi como quando levaram a minha Verdinha, pois ela era minha bicicleta reserva! Já a nova City Tour… era minha companheira cotidiana. A primeira sensaçãoo foi de desespero; incompreensão. “Onde ela está?! O que diabos aconteceu?!”. A resposta era óbvia, mas difícil de aceitar. Tanto pela ligação afetiva que tínhamos quanto pela questão financeira – afinal, ela representava um mês do meu salário líquido atual. Não era algo tão simples assim de substituir.

Choro, consolo, investigação, conversa, BO, lamento, incentivo, xingamento, pesadelo…

Minha mãe, sempre mãe, foi direta e disse: “Vai lá! Compra outra, eu te ajudo”. Apesar de eu achar horrível esse sentimento de que comprando algo novo apaziguaremos qualquer dor, nesse caso acho não tinha muito o que fazer. Eu precisava de outra bicicleta e, afinal, eu estava perfeitamente satisfeito com a minha até então. Lá fui eu pesquisar preços e consegui comprar uma igualzinha a que eu tinha há uma semana atrás. Gastei um mês de salário para comprar um bem material que eu já tinha antes.

No primeiro dia que peguei a bike nova e fui pedalando para o trabalho, não conseguia pensar em outra coisa além daquele sentimento que temos quando nos separamos de uma companheira de anos e nos metemos nos braços de uma nova amante – é bom, mas MUITO estranho.

Não há substituição, apenas o preenchimento de uma lacuna.

Pra encerrar, nesse momento não tenho qualquer resposta ou reflexão importante. Só queria externar minha dor e frustração um pouquinho mesmo. A nova bicicleta, igualzinha à anterior, está lá presa na garagem. Ainda nem sei bem o que pensar sobre isso. É como um monstro que não sabemos como lidar e fingimos não ver. O tempo, quem sabe, dê alguma ajuda. Nem que seja para fingir que nada aconteceu e seguir adiante.


Alexandre Rafael Garcia

É natural de Curitiba e trabalha com cinema. Formado pela Faculdade de Artes do Paraná, está concluindo o mestrado na Unicamp, é professor no Colégio Medianeira e sócio da produtora O Quadro, onde produz e dirige filmes.Leia outros artigos dele aqui.